quinta-feira, 23 de maio de 2019

Diálogo de um eu

Vim para lhe dizer
Que estou farta
Da sua demora,
Desse monólogo
Com hora marcada,
Para as histórias
Do diálogo de um.

Pois vou-me embora
Tirar do peito
A dor que você construiu
Como abrigo, onde você mora,
Ignorando
Todas as despesas,
Todas as contas.

Meu até logo
Tão custoso e demorado
Significa
Até nunca mais.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Pingos d'água para quem tem sede

Pegou a minha mão
E eu forasteira
Fora de mim, senti tudo

Mais que tudo
Senti-me
Inteira

Ali, a cama foi, por um lado,
Um mar de felicidade
E eu estava bem na beira...

Quem sabe, um dia, eu consiga entender,
Sendo eu tanto mar,
Suas lágrimas por ser você só goteira.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

In verso

Invisto
No universo
Através
Do verso.

Sem verbas,
Com poucos verbos,
Centenas e centenas de vezes,
Sem você

Sou mais ou menos
Um nada
Sou um nó atado, sem nós.
Um tipo feroz,

Com voz sombria
Lotada de desejos
Inversos ao meu ser.
Sem você

Sou inverno eterno,
Adversária,
Em enorme cavalaria,
Combatente de mim mesma.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Voltas e meias

Pedistes a mim
Que eu falasse sem rodeios

Impossível!

O mundo mesmo
Roda, roda, roda

Incansáveis vezes

Para dar-nos
Volta e meia

Uma resposta final.

Luta autorgada

O tempo deu-me a noção
Que não importa
A força que eu faça
Para subir na vida

Mais força ainda
É necessária
Para ficar são
E não sucumbir na vida

terça-feira, 14 de maio de 2019

Delayed words

Of all the things that
So many times
Come,
The poetry stays


And falls into no more
Because it asks
Not about my story
But about yours.



sexta-feira, 10 de maio de 2019

Letras demoradas

Das coisas que
Tantas vezes
Chegam
E caem no nunca mais

A poesia perpetua
Porque pergunta
Não sobre a minha história,
Mas sobre a tua.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Riacho acima

Existe um riacho
Na parte de trás da casa rosa
A poucos passos
De onde demos as mãos
Pela primeira vez
Até tudo se transformar
Em várias vezes
E nunca mais.

O riacho vive tão bravio
Descendo ladeira abaixo
Como se fosse ofendido
Pelas pedras no caminho
Pelos peixes pequeninos
Pelo céu antagônico
Que também foi testemunha
Do nosso amor contemporâneo.

Perto do riacho
A vida parece mais fraca,
Mas toda comparação é um pouco injusta.
O riacho, eu acho,
Pode ser uma paródia da vida:
Corre à frente, é cheio de obstáculos, recebe todo tipo de gente, foi e não volta mais.
E é finito, mesmo que não pareça.
Talvez por isso eu tenha tanto medo de entrar no riacho.

Ficávamos observando
Qual pedrinha chegaria mais longe
Qual peixe aguentaria a correnteza...
E eu sempre perdia a aposta
Com tanta alegria
Por ver você vencer, por coisa à toa.
Meu cobertor azul marinho
Passou a ser um pouco fino, um pouco frio.

Ver o riacho sozinha
Não tem muita graça. Nem ver as garças a caçar ventanias...
Você tinha razão, a vida é fraca
Perto do riacho, perto do céu, perto da beira
A vida é fraca.
Mas abraçada em você,
No frescor exagerado do riacho,
A vida foi fresca e bonita.




terça-feira, 7 de maio de 2019

Rotação


Eu era outra
Outrora fui louca
Fui dura
Hoje, sou história
Com clímax
E hora marcada
Para o fim.

A dona do definhamento
Ainda não veio me buscar
Na minha bicicleta
Nem na minha cama
Nem na calçada de pedras
A caminho da estação.

Aprendi na escola da vida
Que o mundo gira, gira, gira
E eu, necessariamente,
Tenho que girar.

Acredito que estou pronta
Para ir embora,
Suponho que todo mundo está.

Mas gostaria de pedir 
Para me deixar
Dar, pelo menos, mais algumas
Trezentas e sessenta voltas pela Terra.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Navegante

E pergunta-me
Se não ligo de ficar
A ver navios.

A ver navios, não.

Nem de voltar ao início
Nem de mergulhar sozinho no rio
Nem de encarar o mar bravio
Nem de sentir muito frio.
Mas preocupa-me, deveras,
Tornar-me vazio.

Ser luz quando a gente se conduz