quinta-feira, 28 de junho de 2018

Aborígene das águas

Como é possível
Ser você humana
Que emana
Entusiasmo e amor
E, ao mesmo tempo,
Ser sereia,
Alguém que olha ao redor com ardor,
Que tem a capacidade
De ir além,
De ser cura num mundo cheio de dor.
Em vez de pele
Você parece ter escamas que cintilam
Mil vezes mais que o sol
Como fazem seus biquínis em cores de prata e de girassol.
E em vez de dormir em cama
Você parece se deitar
Entre estrelas do mar,
Que mesmo estando no fundo das águas
Brilham como se estivessem na mais sublime altura.
Você parece olhar para tudo
Com tamanho apreço
Que parece não ver preço no que gera despesa.
Porque entende que tudo o que importa
Não se conquista com nota.
Eu bem sei,
Não se pode segurar água e ar
Entre os dedos, pois não ficam.
E você também não poderia ficar
Porque é infinita como o mar
Uma espécie de sereia rara
Que é linda
Porque sabe desaguar.
E, por onde passa,
Você espalha o verbo amar.
Para além de sereia,
Você é rainha da imensidão,
Do meu cerne, do meu do meu interior, do meu ar
Como para o mar é Iemanjá.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Desarmar-se

É arma
A palavra
Que ataca
Por atacar
De forma injusta
A palavra assalta o peito
A palavra mata
A palavra insulta
A palavra assusta.

É amarga e má
A palavra
Que executa o afeto
Para afetar
De forma injusta
A palavra furta o peito
A palavra amedronta
A palavra gasta
A palavra custa.

Mas é amar e desarma
A palavra
Que sussurra
Por amor
De forma clara ou oculta
A palavra salta do peito
A palavra dita se escuta
A palavra aquieta
A palavra amar em amor resulta.

Lívia Gallo

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Você balançou todo o meu ser
É como se eu antes fora uma monja
Isenta de desejos e anseios
E, de repente, deixei de ser

Lívia Gallo

domingo, 24 de junho de 2018

Corda bamba

Pudera eu
Viver sem roteiro
Pausar o tempo em fevereiro
Andar muito onde tenha Carnaval
Viver de bem, nunca de mal.
Vencer na vida,
Mesmo sem dinheiro,
Ser valorizada pelo meu eu verdadeiro.
Mas ainda que tudo seja meio desigual
Acredito muito na cartada final
Continuo sempre com essa esperança
Às vezes, há mesmo que ser
Uma eterna criança.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Trivial santidade

Esses versos só serão entregues
Quando avisarem em rede nacional
As últimas horas de vida na terra
A extinção da criatura humana irracional

Esses versos são para enunciar
Que o coração anda mal
E isso não é tempestade em copo d'água
É vendaval!

Esses versos, adentrando ao assunto,
É o manifesto de te admirar,
A desnudez da vontade de te tocar
Revelação da minha baderna interna.

Quando finalmente chegar a hora
Os mortais saberão
Do meu interesse
Para muito além de te ver

De te enlouquecer
Em qualquer hora, em qualquer lugar,
Num beco escuro, num banheiro sujo, que seja
Numa cama abandonada ou numa requintada sala de estar.

Esses versos, por um triz, são puros
Entretanto, o corpo fica inquieto, em apuro
Quando o desejo prematuro cresce
Ah, os desejos obscuros...

Quando chegar o fim do mundo, você saberá,
O quanto desejo a nossa matéria juntas
E, se somos santas ou putas, ninguém pode julgar
Afinal, a única certeza da vida é a cova.

Esses versos são apenas para elucidar
A ânsia que você me impele
De sentir o gosto da sua boca
A vontade sagrada de tocar a sua pele.

E de ver a expressão em seu rosto
Quando o gozo é exposto.
Se você me desse uma chance
O advento da vida estaria bem aqui, ao nosso alcance.

quarta-feira, 20 de junho de 2018


Ultimamente não tenho olhado tanto para o meu reflexo. Não é que eu não o procure mais ao passar pelos vidros de casas e carros na rua. Até reprovo a falta de espelho em banheiros, mas em questão de segundos me habituo à situação. Também não é que não queira mais me ver de frente ou de banda. Acontece que viver todos os dias com o mesmo rosto leva à exaustão. Às vezes, me pego imaginando como seria habitar, com o meu temperamento, outros corpos. Com essa índole malcriada, eu não ia querer migrar para outra matéria qualquer. Quando menos, ceder a tal possibilidade tão facilmente seria uma grande calúnia, uma falsidade, algo muito artificial. Todavia, concordo que com um pouco de insistência, mas não tão logo, eu daria um quê de aprovação, depois de muito morosamente relutar. Então, me deixaria levar, certa de que em pouco mais de dois minutos eu teimaria em voltar. Mas se o tempo corresse demais, distraidamente, eu me acostumaria, não ia ligar de ficar - mas não sem saudade, não sem lamentar. Eu, fora de mim, talvez não fosse mais assim, embaraçada, apreensiva, apessoada e insistente em tramar mil planos para modificar a vida e não cumprir nenhum deles, nem sequer um ou dois. Fora de mim, talvez eu me amaria mais, ou, quem sabe, apenas desdenharia de mim mesma. Pode ser que eu amaria mais a minha casa, a minha casca, o meu semblante nada peculiar; e também o peso das minhas ideias, o jeito desajeitado de falar e a inclinação para a mudança sem prática. Na verdade, eu sei que faria uma prece urgente e incluiria um pedido de desculpa. Mas é certo que o que mais me mortificaria, fora de mim, seria correr o risco de não apreciar aqueles que tanto amo, aqueles que aprendi a amar. Aliás, não vou me preocupar, pensar sobre tudo isso não me moveu externamente a nenhum lugar, eu continuo aqui, eu ainda quero ficar.


                                                                                                                                    Lívia Gallo

Ser luz quando a gente se conduz