quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Mais sujeito, menos objeto

Em alto e bom tom,

Sem que eu percebesse muito bem,

Esbravejei: 

Puta! (para mim mesma).

Me senti aliviada, de certa maneira,

Como se estivesse tirado algumas gramas das costas,

Gramas essas que pesavam como se quisessem me enterrar debaixo da terra.

Então alguém que passava por mim se assustou e bradou em troca, talvez querendo me amansar:

Opa, palavra assim não pode, não. Onde já se viu se tratar dessa maneira? 

Foi aí, então, que eu que me sentia aliviada,

De repente, me senti culpada,

Não só, de novo, com as gramas que me pesavam anteriormente, mas com algumas a mais. 

Comecei a refletir,

Aonde estava a minha liberdade de sentir algo e poder me expressar como tal?

Que lugar limitante é esse que só aceita como expressão palavras de bem escrachadas?

Quem é que disse que o puta

Que rima com culpa

Tem que combinar?

Se eu me vejo como puta, por alguns minutos da vida,

E digo isso a mim mesma para me colocar no espaço, para me entender como gente,

Para me transformar mais em sujeito do que em objeto, 

Me expressando, me articulando, me manifestando

Como o meu desejo, o meu impulso, a minha ânsia bem entender,

Quem é que tem o direito de me apontar o dedo para me moldar, para me calar, para me limitar?

Que civilização subordinada é essa

Que age apenas por aquilo que é moralmente "bom e correto"?

Aonde estarão as partes de mim que não seguem as regras de olhos fechados?

Aonde estarão todas as partes de mim que tem voz e precisam falar comigo mesma?

Quem é que deu significado para as palavras?

Quem é que usa as palavras?

Será que eu usava a palavra puta

Ou ela que me usava?

Será mesmo que puta

Tem sempre 

Que combinar 

Com culpa?





terça-feira, 23 de agosto de 2022

Escritores fantasmas

E então perguntaram-me

Se converso com a minha poesia,

Se me considero em minha poesia,

Se me comunico com as minhas palavras

E a verdade é que não,

Não posso dialogar, trocar ideias, papear

Com a minha poesia,

Porque, então, eu teria um retorno,

Uma resposta, uma constatação

E eu não quero

Uma saída, uma discussão, uma conclusão,

Simplesmente porquê,

Eu sei,

O resultado do bate-papo

Não será gentil, não será doce, não será cortês.

Antes mesmo, será horrível, doloroso como um corte.

A verdade penaliza muito mais

Do que a mentira,

Então, quando finda-se a poesia,

Invento para mim

Que morreu a pessoa que a fazia.



sábado, 20 de agosto de 2022

O amor nos perseguirá até o fim

O amor irá nos caçar 

Irá nos romper 

Irá nos desmontar

Irá nos causar ira

O amor não dará folga

É certeza tipo a morte

O amor será desastre

O amor será sorte.

O amor será qualquer coisa

Menos pequeno. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Me aprender no meu silêncio

Me prender no meu silêncio

Me desesperar no meu silêncio

Me soltar no meu silêncio


terça-feira, 16 de agosto de 2022

Não sei se preciso agir,
Não sei se preciso de tempo.
Não sei se é para ir atrás de você,
Não sei se é para desaparecer.
Eu não sei se vou ou se fico.
Tenho medo das respostas,
Tenho medo de encarar a realidade,
Eu sou mesmo essa garota bem covarde,
Parada a uma distância de um metro de você,
Fazendo dessa pequena distância uma história que nunca será vivida.
Eu tenho fobia da forma como a vida me trata,
Então eu fico parada,
Eu fico travada,
Eu fico me escondendo do mundo.
Se ao menos você pudesse perceber alguma coisa
E resolvesse vir me buscar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Aos olhos da poesia, poeta é hipócrita

Nunca consegui provar que sou eu

A escritora das minhas poesias.

Nunca consegui provar,

Não sei para os outros,

Aqui falo de mim,

Nunca consegui provar para mim mesma.

É difícil de entender,

De acreditar.

É impossível creditar a poesia.

O eu que utiliza-se das palavras

Não é o mesmo que precisa do silêncio.

O eu que explica, se perde.

O eu que cala, cria.

Acredito que o eu poeta nunca poderá ser poesia.

Não é compatível, não é possível, não combina,

É contraditório, o poeta existe quando não há palavras envolvidas,

É no silêncio que vive o poeta,

Que grita

A poesia.

O poeta não consegue se revelar.

O poeta não cabe em lugares,

Não se encaixa em conversas paralelas.

Quando tenta entrar na poesia,

O poeta não existe mais,

Mesmo quando há pouco existia.

Quando se abre

A boca para explicar,

O poeta some,

Desaparece.

Volta alguma hora,

No que falta, 

No que falha,

Quando não é convidado.

Poeta é gente malcriada

E a poesia vingativa:


Termina-se poeta,

Começa a poesia.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Romance que nasceu morto

Já deixei passar

Tantas coisas lindas,

Tanta poesia boa

Que a inspiração jogou em meu colo

E por uma desatenção, uma distração à toa,

Talvez por preguiça

Eu deixei passar,

Não escrevi e já era,

Nasceu sem nascer,

Existiu já extinta...

Essas poesias eu deixei passar

E eu sinto tanta saudade delas,

Mesmo que a gente tenha se conhecido por alguns segundos, era coisa intensa.

Eu deixei passar tanta coisa,

Mas não me culpo tanto mais... 

Todo mundo se descuida, de vez em quando.

Deus, quando teve uma inspiração sobre a gente, também deixou a gente passar...

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Quase unânime

Sou tantas em uma.

Quando meu coração acelera subitamente

E sinto que o mundo vai desabar, girando a cem mil quilômetros por hora, 

Acendo um cigarro e já sinto a doença me pegar.

Quando estou em calma, admirando a cena, a dança das folhas verdes, o cair das beges,

Me pergunto como pode haver vida misturada com esses tipos de drogas

E em cinco dias, mais ou menos, estou afundada num copo de qualquer coisa alcoólica,

Acendendo um cigarro, pensando "talvez esse me salva".

Quando estou debaixo do sol, a céu aberto, me sinto tipo gente grande,

Quando estou na sala de estar, deitada sobre o sofá, me sinto tipo recém nascida...

Sou tantas em uma e uma julga a outra,

Algumas me destroem,

Outras nem tanto,

Uma ou outra tenta ser neutra,

De vez em quando sabem de nada,

Outras sabem de tudo,

Pensam ser mestras no quesito vida.

O que é comum, em quase todas,

É uma dorzinha bem funda

E a boa intenção.



terça-feira, 9 de agosto de 2022

Pelo menos uma

Perdi as contas,

Sendo amante não amada (por mim),

De quantas vezes morri

E renasci,

Morri e renasci...

E eu espero um pouco inquieta,

Um pouco desconfiada,

Um pouco insegura,

A morte súbita,

A morte última,

Provavelmente

A única

Que será - um pouco - menos doída. 


Sendo assim, ainda não me transformei em meus inimigos

Não vim aqui para ser

Sociável, civilizada, amável, clemente, caridosa,

Não sei quem sou,

Mas sei que não sou 

Sociável, civilizada, amável, clemente, caridosa,

Exceto se estou bêbada,

Sou interesseira, egoísta, dura, obscena, impura, estranha, estrangeira, exagerada, alheia.

Quando estou bêbada

Sou viciada.

Estou do lado mais sombrio do mundo

E sei, mais do que tudo, tenho medo,

Ainda não aprendi a andar em solo gélido que queima,

Mas sendo tudo isso, vivo em desprazer profundo,

A tristeza possui a chave da porta da casa que pago a duras penas, com suor, para me deitar

E, ainda assim, não durmo.

Tenho medo,

Muito medo,

O que dizer dos meus inimigos, quinhentas mil vezes mais perversos,

Arrancaram a minha vida sem me tocar,

Enquanto eu não durmo, 

Estão em sono profundo...


segunda-feira, 8 de agosto de 2022

O amor não é para mim.

Não nasci para isso

E assim é. 

Prova disso é que falo tanto sobre ele.

Quando o amor é pra gente,

A gente não se preocupa em dizer muito sobre ele,

Preocupa-se mais em vivê-lo.

É por isso que não falo tanto sobre a morte.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Sintomas

E então a dor,
A doença,
O mal-estar,
O sintoma
Não são, por fim,
Um grito,
Um pedido de socorro,
Uma cachoalhada desesperada,
Dizendo que alguma coisa 
Incomoda muito 
E precisa,
Urgentemente, de mudança,
De ser melhorada? 

E então a dor,
A doença,
O mal-estar,
O sintoma
Não são, por fim,
Um grito,
Um pedido de socorro,
Uma cachoalhada desesperada,
Dizendo que alguma coisa 
Incomoda muito
E não melhora,
Nunca se cura,
Num ciclo patológico repetitivo, a vida não parece durar muito e ser muito dura?




Ser luz quando a gente se conduz