sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Sobreposta

Das poucas vezes
Que joguei-me ao mar
Lembro-me de tomar alguns caldos e engolir o ar.

Das infinitas vezes 
Que caminhei em terra 
Lembro-me de ouvir muitos choros e levar muitos socos.

Mantra de inverno

Deitada, ouvindo meu mantra,
Suportar o inverno
É uma das piores
Tragédias sazonais

Mais desagradável ainda
É ouvir as notícias
Do óbito de quem sentiu frio
Por nem sequer possuir cama ou manta.

Vida em terra

Se locomovemo-nos
Ao céu ou
Ao inferno

Se destinamo-nos
Ao sol ou
Ao inverno

Nada é mais triste
Que viver os pormenores
Do planeta terra.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Convite de fadas

Nossos nomes
De mesmo sonido
Tem mesmo tamanho
Combinam tanto
Que é afronta não tê-los
Unidos no cartão de natal
No convite de casamento
Na foto das montanhas no cartão postal


Com terminação “ia”
Nota-se, é uma dica
De que eu iria bem longe por você
Não a qualquer lugar,
Mas eu iria bem longe…
E, se você também fosse,
A gente ia mesmo, rimar nossos nomes
E viver um conto de fadas.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Devoto

Pé ante pé
Contei com a sorte
E é aí onde mora o perigo.
Doeu permanecer vivo, como doeu…


Se hoje duvido de algo,
Não é das energias e nem de Deus.
O destino de perder a vida não foi meu,
Justo eu que sempre fui incrédulo.


Pé ante pé
Conto hoje sorrindo
Como é que o incidente acontece.
Alivia-me saber que estou vivo.


Se hoje contesto,
Não é o universo e nem Cristo.
Tenho apenas aceitado a vida,
Logo eu que sempre carreguei o peso de ser ateu.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Amigos-irmãos

Quem te entrega
Quem você tolera
Quem denuncia-te na véspera
Não serve nem para refrão
Quanto menos para ser irmão

É quem dá o braço
É quem te ajuda no nó do laço
É quem vai com você no compasso
E não reclama do chão
É quem dá por simpatia a mão

Eu tenho tantos amigos-irmãos
Todos são da minha gangue
E eu considero de sangue
Nem vem falar que não
Irmão mesmo é aquele por quem sente-se afeição




Contraponto

Que nada,
Não posso mudar
Essa minha maneira
Indisciplinada.
Remando contra a corrente,
Fazendo diferente do que faz toda gente,
Padronizada pelo sistema,
Pela mídia que esmurra e belisca,
Pela propaganda que escraviza,
Pelo patrão que judia.
Eu não, não dou anuência.
Gosto mesmo de quem sou,
Da minha ousadia,
Da minha escrita,
Da minha vida vadia.
Porque ter a vida restrita,
Eu não.
Não sou tão hipócrita assim...
O tempo que me foi dado tem valor.
Não vim aqui para brincar de vida,
Nem para fingir amor,
Portanto só vejo uma saída,
Viver cada dia na despedida,
Porque, uma hora dessas,
Será mesmo a da ida.

Tradicional tamborim

Que qualquer batuque
Faz a alma pular,
O piso tremer,
A boca falar,
Não é novidade,
Que até gringo se arrisca,
Em qualquer gingado e pista,
Até santo risca fósforo e pita
E pisa mesmo em qualquer avenida,
Em qualquer quintal.
Até eu, que não sei bailar, quando escuto o bandolim
Converto a vida em Carnaval,
Faço do não o sim
E no meio da rua lotada me sinta a tal.
O tal samba,
Do malandro, do trabalhador,
Que engendra batuque pra curar a dor,
Dá um negócio cá dentro,
Igual faz o amor na hora do encontro,
Igual traz a cama a riqueza do dono com sono,
Igual nos encabula o mágico com o último truque,
No samba tem aquele tal batuque.
O pé agitado em destaque,
Igual o pulo de alegria do tiro certeiro de bodoque,
O samba faz defunto acordar da morte,
A mocinha tomar um pileque,
O moleque achar a sua turma.
E impede que toda a gente durma
E quem escuta,
É tiro e queda:
Sempre pede mais uma.






segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Depois de partir

Na hipótese
De darem cabo da minha vida
Oro para que continue por aqui a poesia
A Adélia, a Matilde, a Hilda e a Virgínia


Na hipótese
De acabarem com a minha escrita
Rogo para que cuidem das palavras como eu faria
Com memória, com metáfora, com encanto e fantasia


Na hipótese
De cair o céu, da forma como eu sempre desabo
Rezo para que volte com a maresia quem foi e não devia
O arau-gigante, o cantor de samba, a minha mãe e sua alegria

domingo, 2 de dezembro de 2018

Morada sem namorada

A casa de artéria
Sem areia nem terra
Com comoção de desabar
Tem praticamente coração de pedra
E sustenta-se, dia após dia,
Sabe se lá como,
Com sua estrutura fina,
Afundada nas conversas,
Imergida na miséria,
Cambaleante de bêbada,
Submersa em festas,
Teria qualquer outra vida
E porque não quer, não tem.
A casa de artéria
É morada sem namorada
Mas é à base de flertes,
Escorada em paredes opostas,
Ancorada na alvorada, joga-se na rede,
Sente a sede do amor
E precisa de ajuda
Mas não cede. 
Por socorro, a casa de artéria,
Nunca pede.
E, se cair, um dia, cruzando qualquer via,
Vai e nem mesmo se despede.
É queda pela qual esperava pronta.
A casa de artéria ergueu-se assentada na sombra
E não teria razão de existir se fosse pela sua honra.


Ser luz quando a gente se conduz