terça-feira, 13 de novembro de 2018

Bandeira

Ainda não
Ainda não abotoei o paletó
Apesar da náusea que me acomete
Depois que hasteio-me
Com os pés pelados no sobrado
Também depois que deito-me
Arrio feito bandeira.
E a minha não leva
Lábaro, emblema, flâmula, cor, pendão.
Mas até o perdão
Ainda há em mim.
Não sei até quando.
Desconfio que não se demora.
Portanto, até logo...
Vou-me embora.
Não quero ter que,
Mais uma vez,
Ajoelhar-me
Olhar-te nos olhos
E absolver-me.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Ritual

Caminha para a cama
Parece que vai 
Pro matadouro.
Deita-se
Para descansar
Em pesadelo
E levanta-se para levar coro.



Número mestre

A chave mestra
Não marcha
À cadeira do imperador
Não perambula
De encontro à garota que escreve
Não dita palavra
Da tabuada do infinito
Não elege
Beleza nem tamanho.
Tem a ver com algarismo
Com a minha idade
Com a minha origem
O número, mestre
Da criação, vinte e dois,
Está aqui desde que brotei
Peregrinando poema.
A revelar, a interditar o dia...
Finalmente,
Enviaram-me o mensageiro,
Pontualmente, sem delongas.
E a minha resposta só tem a ver,
Só pode ter a ver,
Com poesia
Com gratidão 
E com Deus.

Compadre

Alumiou
O céu de galeria
Em gravura sempre a rir
Mesmo que demore a rir
Se declararem o fim
Dos tempos
Dos direitos humanos
Da cerveja na taberna
Da vida da Lana
Da música entoando todos os ais.
Você disse que será jovem para sempre.
E eu acredito em você.


Você alumiou
O céu de alegria
Em cada chegada simpática
Afável, comunicativa.
Quando herdou a voz terna
De menino lindo quando chora
De menino luz quando ri,
Alumiou a vida, meu compadre.
Eu tenho pena do mundo,
Quando você mudar-se daqui.
Pois fique o máximo que puder,
Meu irmão, meu amigo, André.

domingo, 4 de novembro de 2018

Leilão indevido

No leilão da igrejinha
O homem anuncia ao microfone:
“Trinta, trinta e um reais”
E eu me pego pensando...
Como podem dar tão facilmente o dinheiro
E não darem o amor?
E basta olhar para frente
E a réplica está dada,
Cara a cara comigo,
Na perfeita imitação
De quem eu sou.

Mensagem de despejo

Escrevo
Para que amanhã eu me lembre.
Não aturo mais
Gente que me aponta o dedo
Gente que me indica a direção
Gente que acha que a sua ficção
Deve ser a minha realidade.
Não aturo mais
Gente que me difama
Gente que crê
Que deita na minha cama
E sonha a minha fantasia.
Não, eu não aturo mais.
Por isso esse poema.
E ficará olvidado na gaveta:
Para que eu não tenha mais que tolerar
Quem não me atura.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Habitat

A cadeira de praia no canto do quintal
O canto dos pássaros na árvore dourada
A ajudante e o almoço à espera
As cordas do violão em trabalho de parto
A agravar o desafino do burburinho
A caça dos gatos na floresta de trás
E a dos mosquitos na cozinha de dentro
O berro da mulher que vive ao lado
O funk inflamado e excessivo do solitário
A cama confortável com manta de tigre
O vácuo do amor
O café morno com uma colher e meia de mel
A torrada com creme de alho
As pupilas dilatadas por andarem no escuro
O mantra entoando equilíbrio ao fundo
Me fazem crer que estou em casa.

Ser luz quando a gente se conduz