quarta-feira, 25 de julho de 2018

Corvo do mundo

Instalou-se sobre a paineira do terreno baldio
Pelada de folhas e flores cor de rosa
Um corvo de pouso manso e de olhar vadio
Os olhos, o bico e a pluma sendo unos
Como se fosse um cansado
A cabeça imóvel a estudar do alto tudo
Era um ponto preto isolado no mundo
O corvo era lindo, polido, mas todos o julgavam imundo
E tínhamos tantas coisas em comum...
Ele voltou todos os dias
Nos tornamos amigos
Ele foi se encontrando comigo
E eu fui me encantando com ele
Ele pousou na rede comigo
Eu deitei na sede da presença dele
Então, um dia, o corvo alçou voo
Sem destino de volta
Fiquei a esperá-lo
Primeiro, me revoltei
Depois, me senti um nada
Agora já tão cansada...
Farta da demora
Finalmente descobri a coordenada
O destino do corvo era orientação para mim
A direção exata de ser livre:
Soltar, esquecer, deixar ir.

Lívia Gallo

terça-feira, 17 de julho de 2018

149.600.000 km

O sol tem adentrado pela janela deste quarto
Como quem chega de súbito à porta
E entra sem pedir licença
Retirando todo ar do ambiente
Num toque que prevê o beijo de arrepiar
E, com efeito, pouco tempo basta
Pro sol que arde ser fogo
Mesmo não dispondo de oxigênio.
Pro sol que queima tirar o fôlego
Mesmo sendo inverno gélido.
O sol que nutre o mundo
Com um pequeno atraso de oito minutos e dezoito segundos
Merece redenção,
Por estar a milhões e milhões de quilômetros na amplidão,
Ele dá a sombra, para vir o frescor como opção.
E não existe meio termo:
Ou você se expõe à luz natural e sua
Ou você se arrepia no escuro e então é dele
Porque o precisa, porque o aspira.
E quando ele finalmente chega
Ele te presenteia,
Mas, estando debaixo dele, você se queima.
Então você o rejeita.
E não estando por perto, você o anseia,
Como quem transpira de febre,
A temperatura do corpo molhando a pele.
Não adianta correr,
Porque não vale uma gota que você transpirar,
Ele volta todos os dias, sempre vai voltar.
Nós é que, mais cedo ou mais tarde, teremos que ir embora.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Carta para Maria

Eu sei, mãe,
Às vezes, a gente se esquece
Que antes de ser mãe
Você é pessoa
Humana cheia de vontades.
E, muitas vezes,
Em prol da cria,
As deixam de lado
e, ainda assim, não sucumbe à infelicidade.
Eu sei que é difícil ser mulher,
Num mundo excludente,
Sexista,
Que considera como valente
A virilidade agressiva masculina.
Eu posso imaginar,
O quão difícil deve ser
Além de tudo, ser mãe,
Mas eu não imagino o prazer
Que é ser brilho na vida das pessoas,
Luz tórrida que nunca vai escurecer.

Ser luz quando a gente se conduz