sábado, 29 de abril de 2017

Anonimato

Confesso que perdi a conta
De quantas vezes fiz de conta
Que você significa apenas uma pequena cota
Do muito que carrego no coração.
A verdade é:
Fingir que você não significa tanto,
Que cada vez que te vejo eu não me encanto,
Só serve para esconder o que está guardado
Seguramente em um canto.
No entanto, admitir o amor,
Às vezes, causa repúdio, espanto.
Apenas sei que sinto
E é tanto...
Lívia Gallo

Vida de gato

A porta entreaberta
Uma brecha
O gato se aproximou
Quis ultrapassar
O acesso restrito
A tentativa em vão
O corpo e o vão em atrito
O desejo e a ação,
Um conflito,
Um gato aflito,
Um recuo conciso,
Uma investida,
Nenhum mérito.
Ao final da narrativa,
Uma brecha atrativa.
A resposta da porta,
É como a da vida:
Nem sempre positiva
Mas importa, afinal, a tentativa.

Elefante da sorte

Andando pelo deserto de Gobi
A minha sorte eram as estrelas de madrugada
Fiz da luz de cada uma minha morada
E domiciliei-me em tantas casas que apelidaram-me de estrada de terra iluminada.
Passei a caminhar pela vida afora.
Numa manhã de trinta graus
Descobri a Tanzânia
Eu estava tão distante em retiro
Que numa mania de procurar sinais
Num hábito de olhar os astros
Avistei de longe um enorme elefante.
Esperei que ele se aproximasse
E indaguei:
- Para onde devo caminhar?
Ele me olhou com o seu formoso semblante
Com seus olhos de jabuticabas maduras brilhantes:
- Vá ao caminho de quem você considera importante
Se não há reciprocidade, é apelo que grita "avente".
Amor é oriundo da natureza
Incompatível com exigências dissimuladas e artificiosas.
Olhei para o enorme elefante:
- Quer dizer que amar é acidente?
- É sorte. Ninguém pode amar de forma semelhante, apenas amar.
Então, depois de muito caminhar, cheguei até aqui...
Não trouxe nada de valor exorbitante
Apenas amor e admiração gigante
Por você
Que vale mais que ouro
E trinta e um mil quilates de diamante.

Lívia Gallo

Deleitar-se

Deitado na grama
Recostou-se no outro
Deu a mão
E como se fosse cama
Se fez encosto.
Não fez drama,
Escolheu o oposto.
As palmas,
Como se estivessem em chamas,
Queimaram feito fogo.
Aquele era o gosto
O deleite conjunto, composto.
Porque seu apetite era contra o imposto.
Provou do amor,
Era para isso que estava disposto.

Lívia Gallo

Como era amar...

Sinceramente, enganei-me, não é possível esconder por muito tempo todo o sentimento que carregamos. Quando algo é forte demais por dentro, a mente, o corpo, a boca não suportam acobertar. Parece que vem à tona de forma natural. É como água que não conseguimos segurar por entre os dedos e - o pouco que cai - molha um tanto. Entretanto, não é bem assim. O amor, por exemplo, não se mede em escalas com réguas graduadas. E não existe controle capaz de o conduzir piamente de forma regular. É que amor é coisa um pouco louca e chega com audácia, em grande parte das vezes, sem avisar. O amor, ora grita em vez de calar, ora oculta em vez de apontar. O amor...
Não é simplesmente aí que quero chegar, até porque não está em minhas mãos manual que ensine as regras com tópicos milagrosos, quase sobrenaturais, para te fazer acreditar que é capaz, mas deve-se, primordialmente, lançar as chances nas mãos divinas e esperar esperançosamente por uma surpresa que pode muito bem nunca chegar. Portanto, coloquemos, primeiramente, em nossas mãos, assim parece menos difícil, afinal, amar é, simplesmente, amar e suponho que somos todos capazes, mesmo quando não somos.
Fato é que, mais uma vez, meti os pés pelas mãos, eu confundi verbos. Me dei conta, entre uma atitude e outra, de que eu estava por muitos instantes - e por muita distração - negligenciando o amor e passei a jogar em detrimento de amar. Pudera eu, deveras, não conduzir a mim mesma. Por tantas outras vezes me dei conta de que, nesse caso, não cabe disputa, não é questão de perder ou ganhar – mas me esqueci de lembrar. É verdade, sofri muitas derrotas por me portar como se estivesse em uma briga de conquista. Não me eximo da responsabilidade, mas ainda suponho que no fundo, bem no fundo, quase submergido, eu sei, isso ainda seja amar. Das poucas vezes que considero que o amor me tocou por inteira, em todas elas me portei, em um momento ou em outro, como se estivesse em um jogo de azar. Fiz minhas apostas, mesmo sabendo quase nada de probabilidade. Confiei na sorte, e agora penso que talvez fosse melhor ter colocado nas mãos de Deus. Me equivoquei tantas vezes que até pensei em abortar todo o plano. Perdi as contas de quantas vezes quis me esquivar. Eu não queria perder e continuei a fundo, mesmo sabendo que não havia chance de ganhar. No final, após atitudes errôneas e insistentes, quando o choque de realidade bate com o gosto forte de cachaça, não me surpreende o meu brado consentido. Já era de se esperar, a minha desconfiança não falha. Eu devia ter aprendido de primeira: amor é misto de destino com conquista. Às vezes, o segundo sem o primeiro causa desistência, mal-estar. O que quero dizer é que o amor chega de repente, sem avisar, abre a porta, senta-se na sala de estar e fica. E pode ser que a chave da fechadura não encaixe. Pode ser que forçar demais ocasione quebra, rachadura, então é melhor não pressionar o que não combina. A minha chave que o diga, não era o protótipo certo, tentei girar algumas vezes, sem nenhum ganho, nenhuma sorte, não consegui entrar, então, sem despedida alguma, fui embora.

Só queria que o amor, estoico, estonteante, encantador e lindo como é, fosse correspondido em todo e qualquer lugar, sem precisarmos recorrer aos céus, à sorte. Não queria que fosse assim, ter que passar a me vigiar, calculando e ponderando até onde posso ir, qual a linha limite que não devo e não posso ultrapassar. Mas tudo na vida é lição e aprendizado. Eis aqui o que aprendi: se o amor é algo natural, não me parece viável cobrar de alguém algo que não possa dar. Desconfio que se o amor não chega até certo momento de forma espontânea, é porque já era, não será esse a conduzir-se como par. Cabe dizer que não existe culpado. Me parece que o que acontece é que sentimentos divergentes existem em todo lugar, alguns amores se encontram, outras ainda estão a procurar e outros já entraram, tiraram os sapatos e encontram-se deitados, confortavelmente, na sala de estar.

                                                                                           Lívia Gallo

Cria coração

Embora tudo tenha a sua hora
Quando você vai embora
Que saudade que dá
O amor que aqui dentro mora
Comemora a volta
No entanto, enquanto não retornas
Por vezes, até se revolta 
Mas se amorna, repousa e espera.
De hora em hora olha para a porta
Quando, então, sente o cheiro vindo da horta
Daquele que importa
O coração salta, não se comporta
É que é no cãozinho onde mora 
Um grande amor.

                                      Lívia Gallo

Ser luz quando a gente se conduz

Quando me disseram que aquela situação era horrível, olhei fixamente para o céu - o único que estava acessível no momento - de concreto e branco, sem azul e sem nuvens. Eu não via tudo aquilo como algo horrível. Simplesmente não conseguia entender dessa forma ríspida, assustadora. O que tornava toda a situação horrível era o modo como estavam tratando-a. Quando uma situação é difícil, as pessoas, em vez de transformá-la em mais amena, em alguma coisa um pouco mais branda e superá-la, têm a grande mania de piorar o que já é difícil, de agravar o que já é penoso e apontar um culpado. Parece que dessa maneira tudo fica mais fácil e resolúvel. Ou seja, o importante é culminar um responsável, acusá-lo e liquidá-lo. Nesse caso, eu era réu e estava sendo julgada, mesmo não estando em um tribunal. Estava na sala de estar da minha casa. Não sentia que havia errado para ser tão grosseiramente condenada. Logo, eu apenas queria fugir dali, daquela gritaria, do maltrato que cortava sem sequer encostar. Mas não podia correr sem ser vista, muitos dedos apontavam para mim, afinal. Olhos esbugalhados me encaravam, vozes gritantes, gestos gélidos. Foi então que em meio a tanto terror me joguei inteira para o meu interior. Por um instante milagroso, consegui fugir sem sair do lugar. Algo como uma meditação que impus a mim mesma, era a única forma de me esquivar, de demorar ali - já que eu tinha que ficar - sem entrar no jogo da moléstia, da doença, do mal-estar. Não sei explicar como essa meditação obrigatória deu-se efetivamente de forma natural, apesar de forçada, ainda que imposta. Mas tenho total convicção de que as verdadeiras obrigações da minha vida se não tiverem que acontecer de forma minimamente espontânea ou natural, provavelmente, não acontecerão, talvez, por excesso de respeito a mim mesma; e o que os outros pensam de mim, já dizia Lama Michel, é problema exclusivamente deles. Então, adentrei em mim mesma, de olhos abertos, ouvidos destampados, escutei os berros, assisti o indicar de gestos dirigidos em minha direção do lado de fora. Por dentro, estava só, em silêncio e consegui ocultar o meu eu furioso - aliás, não o encontrei. Ao infiltrar em mim mesma, sem dar chance e sentido às situações externas, não me deparei com irritações inconscientes e, de alguma forma, prevaleceu a calmaria, e a tranquilidade interna gritou mais alto do que os sons espavoridos lá de fora. Não retribui nenhum grito, nenhum gesto perverso ou maldoso. O entrar em mim me deixou tão leve diante das circunstâncias que mesmo só, sem poder retirar-me dali, foi como se tivesse me transformado em algo parecido com o sol, com as estrelas: me senti iluminada, inocente e me tornei inofensiva. Naquela tarde, diante de uma situação que tinha tudo pra ser desagradável e irritante, percebi que quando a gente se conduz e cuida de si próprio há grandes chances de surgirem breves instantes, que podem se prolongar, em que conseguimos ser luz e iluminar a nossa própria vida e a de outras pessoas.

Lívia Gallo

Asas de gavião

Esse coração,
Apesar de ser um tanto volátil,
Não evapora.
Mas se um dia o fizer,
Com punho firme afirmo:
Não será de maneira fácil.
Esse coração,
Que insiste em existir
De maneira imbecil e instável,
Tantas vezes me surpreendeu
Sendo um tanto resistente
Ainda que muito frágil.
Há pouco,
Com uma habilidade inigualável,
Se jogou perante um abismo
Em meio a pedras pontiagudas.
Mas, antes de tocar o chão,
Inventou asas fortes
Como as de gavião.
Voou sem rumo
E, quando pousou,
Pousou com prumo.
Ofegante,
O coração ficou a esperar.
O bater das asas,
Apesar de o salvar,
Cansa.
Agora encontra-se em um lugar deserto,
Onde não há gente alguma por perto.
Daqui a pouco, esse coração
Que está a descansar
Alça voo novamente.
É brio obstinado
Que ama demais
Ou melhor dizendo: demasiadamente.

11-05-2016

Às vezes, sinto que o não sentir é o melhor que tenho a fazer. A despeito disso, não consigo cumprir a meta e me torno tão incoerente. Admito, toda essa bagunça aqui dentro já é recorrente. Sinto tudo que desejo desaparecer. Entre algumas reflexões e outras, meus desejos inconstantes tornam-se contestáveis. Há momentos em que a conclusão que chego é que todos esses sentimentos não fazem sentido. No entanto, me dê alguns minutos e eu faço desta tempestade um copo vazio. Do turbilhão de pensamentos, me dê uma distração meia boca e eu calo os gritos do meu corpo. O desaparecer de sentimentos não me parece eficaz. A distração acontece e depois o sussurro: fica. Tudo bem, um passo atrás. A volta ao ciclo, o sentimento empossado. Outrora penso, não fosse isso, seria eu o quê, um objeto inanimado? Ah, não vou mentir, não vejo propósito se o primordial for o não sentir. É que não nasci pra meramente existir.

Lívia Gallo

05/09/2016

A vida passa tão depressa
E a gente não para
Não pensa
Sempre com pressa
Atrás de uma recompensa
Que não compensa
E se desfaz.
Somos presas
E vivemos presos
Por sermos parte do esquema
De um sistema cheio de problemas
Que valoriza o vintém e o que você tem
Mas isso não convém.
Eu sei que é difícil fugir,
Afinal, somos todos reféns…

Duas Gerações

Portava um bibelô de ponteiro na mão direita
Na esquerda, uma fada miúda com asas,
Com particular pureza, dádiva de criança,
Sentia o conforto térmico do piso blindado de madeira
E cravou os olhos verde água, quase de cascata,
Ante a velha a balançar na cadeira como se fosse balsa
Interpelou questão totalmente etérea
- Ô, vó, o que é desperdício de tempo?
O balanço da cadeira em ritmo de valsa...
Demorou-se, como que já dando resposta,
Fitando o teto arcaico da saleta
Herdou segundos de reflexão no repouso.
- Existe o trabalho, filha, a labuta,
Algumas pessoas afirmam que é para isso que viemos aqui,
Para que o ofício, diariamente, seja a nossa honra, a nossa luta.
Mas, veja bem, a gente veio aqui para ser feliz,
Não para nos entregarmos por pouco e vivermos por um triz.
Se você desejar, minha filha, a disputa
Pode ser em desfavor da vida bruta.
Você pode manter-se sem vender a sua existência...
Desperdício de tempo é quando não vivemos em prol do coração
Em grande parte das vezes, ao final da vida,
As pessoas percebem, “oh, essa era a grande razão”.
Espero que você não note tarde demais,
As coisas que passam não voltam jamais.
Seja contra o que bem querem fazer de você,
Afinal, você veio aqui pra quê?

Ser luz quando a gente se conduz