Não sei se há como explicar,
Com poesia,
Que é o que não se fala
Que rege a vida.
Entrelinhas perdidas possuem lugar quando partilhadas. Textos e poesias de autoria de Lívia Gallo. Instagram: @versariarse, @lviag
Penso
Que serei pobre para sempre
Porque a minha ideia de riqueza
Não segue as marcas mais caras,
Não quer a casa mais espaçosa
E nem o último carro do ano.
Penso
Que serei fracassada para sempre
Porque o que vejo como sucesso
Não é dado pelos diplomas universitários,
É conquistado, dia a dia,
No respeito e na empatia
Ao próximo.
Penso que sempre serei estrangeira,
Em todos os lugares que eu for,
Porque, neste mundo,
Para pertencer, há que ser de tal jeito,
É preciso ter tamanho,
Status,
Ser idêntico ao rótulo.
E eu não sou.
Penso,
E a cada dia tenho tido menos dúvida,
Ser eu um acidente,
Um golpe, uma frustação,
Um fatalidade,
Um fiasco
Ao mundo.
Não era este o meu intuito...
Mas agora é.
A consequência
Da gente
É acabar
Em alguns instantes.
Ser o que se é
É pura questão
De natureza.
A cíclica
Temporada.
A continuação,
A parada.
Eu não vou mudar
Para te agradar
E nem espero o mesmo
De você.
A gente bem sabe,
Fingir ser outra coisa
É algo que dá, por um tempo,
Mas não dá pra manter...
Chegar
Como chega a poesia:
Não todos os dias,
Mas, uma vez que chega,
Fica
Para sempre.
Eu não peço que você me aceite,
Eu peço ao místico que me ajude a aceitar a mim mesma
E a sua visão sobre mim.
Mas eu não peço que você me ame,
Eu peço ao místico que eu me ame
E que eu entenda o seu não amor por mim.
Eu não peço que você mude,
Eu peço ao místico que mude o meu conceito inventado sobre você
E acolha quem você realmente é, sem mágoas.
Eu peço, eu peço,
Mas nem sempre sou atendida.
A menos de um passo
Dela
O menor dos medos
Me coloca numa distância
De três quartos
Daqui às estrelas.
Partindo
Do princípio
De que todo excesso faz mal,
Te amar é tão maléfico
Que me causou uma grave doença
Física e mental.
E o trauma é tão profundo
Que qualquer um, neste mundo,
Sabe que a trama se encaminha
Para um final infeliz.
O mal que causo
A este planeta
É
Parar de falar
Do que é proibido
Apenas
Quando eu for
Uma alma
De poeta
A sete palmos da terra.
Era convicta
De que eu só poderia
Ser sábia e instruída
Se eu confiasse piamente
Em algumas teorias.
De fato, a terra não é plana
E a vacina fornece imunidade adquirida.
Independente do que se diga,
Convenhamos, algumas verdades
Já foram concluídas.
Mas a própria ciência admite,
Uma teoria só é válida
Até ser refutada.
Dizem que só dá para consumar o que foi analisado,
O que tem previsão....
Por isso a poesia acredita
Profundamente
Na energia,
No clima
E na paixão.
Resta dizer, por convencimento,
Eu não via a ironia:
Só posso ter acesso
A outras ideias
Se eu descofiar das minhas.
Estava a pintar
Uma imagem de meu gato
Quando ele se aproximou de surpresa
E esfregou-se
Em meu braço,
Arrancando aquele risco na lateral...
Mas o defeito,
De repente,
Tornou-se um efeito especial.
Agora, eu o chamo de efeito "colateral"
Da minha pintura.
É claro, eu poderia passar uma tinta por cima,
Ajeitar a tela,
Mas, então, eu estaria encobrindo a história dela.
Agora, eu e meu amado gato
Temos uma linda memória de amor,
Resumidamente riscada
E emoldurada
Na parede de casa.
Há um segredo
A ser revelado:
Não existe quem não sinta medo.
Aquele que se rebela,
Aquele que aquieta e atenua,
Aquele que ousa,
Aquele que despe a alma,
Que a deixa nua.
Aquele que domina.
Aquele que é obediente.
Tem
Medo
Da queda,
Da quebra,
Da separação.
Medo da falta,
Do novo,
Da falha,
Da suspensão.
Medo do resto,
Do tempo,
Da ocasião.
Tem medo
De qualquer coisa,
Medo de tudo.
Até o medo de nada,
É medo.
O importante é fazer,
Mesmo assim.
Mesmo
Com medo.
Obrigaram-nos à felicidade.
Exigência árdua a quem segue ditames.
Primeiro, os homens perderam a bondade.
Depois, perderam o autogoverno
E, por conseguinte, o livre-arbítrio.
Então, escapuliu o discernimento.
Agora, a maioria marcha no escuro,
Encoberta por sua própria venda,
Turvada do que é acessível, claro.
Tão curvada...
Chega a dar pena...
Que lástima,
Olhar apenas para os próprios pés.
Também eu, muitas vezes, tenho olhado.
Tantos perambulam esquecidos do mundo.
Muitos divagam contaminados pelo relógio, pensando apenas no futuro,
E se esquecem do tempo importante, oportuno:
Este breve presente.
"É hora!", enunciam os deuses cósmicos,
Do cair do temporal, do sol de rachar,
Da flor que morre e cresce em temporadas.
Obrigaram-nos demasiadamente à felicidade.
Hoje, suspeito que quem é feliz
Arrisca-se
A não entreter-se no jogo mundano.
A não cumprir as regras.
Eu retiro-me...
Essa brincadeira de mau gosto,
Eu chamo de
guerra.
O cotidiano
Pontuava:
Os dias comuns,
Habituais,
Ordinários,
São, em verdade,
Extraordinários,
Por parecerem os mesmos,
Mas serem
Totalmente
Exclusivos.
Não foi à toa
Que o místico
Me despertou às cinco da manhã.
Eu tinha que estar alerta
Para ser a descobridora
Desta nova poesia.
Por fim,
Sentir
Mais tem a ver
Com esvaziamento
Do que com acúmulo.
O sentimento
Vivenciado a fundo,
Preenche o corpo,
De tal modo
Que transborda pela beirada.
E se vira uma letra,
Uma poesia, um tom, uma tela,
Então, é uma ideia
Que pode até cair por terra,
Mas não acha túmulo.
Tem sido um evento
Dos mais duros,
Esperar o fim do inverno,
Desde seu início lento,
Já muito escuro.
É como trancar os dias num cofre,
Até a chegada de um futuro longínquo...
A previsão do inverno precisa:
Vento a mil,
Céu totalmente cinza.
Quem inventou o frio no atlântico
Se esqueceu que a terra precisa de sol.
O ritmo da conversa mudou,
Você só sabia olhar para o relógio
Para conferir a hora,
Quando me despedi,
Você pediu que eu não fosse,
Mas eu acredito que já havia perdido muitas chances de ir embora.
Como que num passe de mágica,
A minha existência
Torno-se mais valiosa...
Quando fui adolescente
E sofri por amor,
Escrevi uma poesia
Que dizia:
O coração
Não pode ser apenas um membro
Do corpo,
O coração é um membro
E todo o resto.
O coração é tudo.
Eu me lembro...
Creio que eu estava certa.
Não são
As folhas
No chão
O retrato óbvio
De que existem árvores peladas
E, por isso, o início de uma nova estação?
Não é óbvio
O começo à partir do vazio?
Um copo vazio
Pode receber líquido.
Um corpo vazio
Pode ser fluido,
Flexível,
A ponto de chegar
Em quase todos os lugares...
Armanezar os dias,
Conservar os dias,
Todos os dias,
Mesmo sabendo que o tempo
Não vai aguardar
Enquanto tento guardá-lo.
Pois tenho aprendido
A me frustrar menos
Quando me sinto furtada
Pelos finitos momentos
Impiedosos
E ardentes.
Me sentei lá,
Na beirada,
Um pouco seca,
Um pouco molhada,
Nem muito pra um lado,
Nem muito pro outro...
Um pouco de tudo ali,
Eu, imóvel, fã da correnteza,
Assim é que foi.
Lá, sentada, eu observava os pássaros,
Como se um fosse a cópia perfeita do outro,
Mas a verdade é que cada um era um.
Nenhum deles, apesar de nadarem juntos, nadava igual.
Nenhum deles, apesar de descansarem juntos, descansava igual.
Uns com a cabeça mais curvada pra lá,
Outros com o corpo um pouco mais reto,
Um pouco mais cansado...
Sentada lá, pensava que não há tanta diferença
Entre os pássaros e a gente,
Exatamente porque, sendo nós distintos, somos também muito parecidos em comportamentos,
Em atitudes, em instintos,
Principalmente quando se trata da infinda vontade de voar.
Sempre fui a que se foi...
Sempre serei a que parte.
Não é a despeito disso que meu coração mora em tantos lugares:
É por causa disso que meu coração mora em tantos lugares.
Sempre foi difícil decidir entre ir ou ficar.
Quando fui, me perguntava se a decisão era correta.
Hoje, aqui está a resposta:
Sinto saudade de todos os lugares em que existi,
Mas eu senti muita, mas muita, saudade de não estar
Onde estou agora.
O mar,
Em ondas,
É o vai e vem,
A nos lembrar que os pequenos pedaços
Fazem parte do todo
E a única constância é a mudança.
O sol,
Em ciclos,
É o nascer e o morrer,
A nos lembrar que o escuro e o claro
Fazem parte da vida
E a única constância é a mudança.
As folhas,
Em voos,
É a juventude tenra e o envelhecer delicado,
A nos lembrar que deixar ir
Faz parte da estrutura da vida
E a única constância é a mudança.
Gostar do sol,
Estando na sombra.
Do vento,
Estando em casa.
Do mar bravio,
Da beirada.
Do hoje,
Amanhã.
De romance,
Pelos filmes.
De você,
Por mim.
A vida real,
De fenômenos,
Acabados e completos,
Exige mesmo certa distância,
Pois não para na nossa (humilde) opinião.
Eu percebi
Que aquilo não era pra mim.
Mas, de teimosia,
Eu insisti e insisti.
Até que veio uma mão mística
E me obrigou a sair dali.
Eu sofri, é claro que sofri.
Mas é que ninguém pode
Contra as leis da natureza.
Demorou, mas hoje eu pressinto
Que a tal mão divina
Foi um presente
Dos mais bem vindos.
O papel que me presto
É o que a mim foi dado.
O preço que pago, nem mais barato e nem mais caro,
É o que me é cobrado.
Como correr com o mundo, se ele pesa...
Como fugir mais rápido, se não adianta a pressa...
As promessas vagas são apenas impressões impostoras.
Não me importa mais se caço ou se sou presa,
O importante é o que faço comigo mesma.