sábado, 28 de dezembro de 2019

O interior que me interessa

Não sou eu
De alguém
Quando sou.
Sou do momento
Que me dôo,
Com dor,
Sem dó,

Me dou,
Quando quero
Muito
Me dar,
Menos de corpo,
Mais de alma.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Pureza mundana

Lá fora
A chuva
Descreve
A limpeza
Do chuveiro
Do mundo.

Nas casas,
Os sofás
E as camas
Versam sobre o aconchego
Caloroso do laço
Dos que amam.

Aqui,
Qualquer palavra
Sobre a vida
Tem espaço ilimitado,
Pois a vida está
Em todo molhar e encobrir-se.

O amor, por outro lado

Repara,
A morte
Traz consigo
Amor.

O luto
É a tristeza
Da falta,
Do óbito.

Se a tristeza bate
Devido a ausência,
Repara nisto,
É porque amamos demais.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O misticismo manda

Do que são feitos
Os dias?
Do dia que passa,
Do que a gente adia,
Do que a gente odeia,
Do que a gente cativa.

Do que podia ter sido feito,
Mas não foi.
Do que podia,
Do que podia
Ter outro jeito,
Mas o místicismo da vida
Não pedia...



Ciclos

Fostes
Como a folha
Fora da estação:
Seca
Mirrada 
Extinta.

Fui, então,
Como tinha de ser,
Como é a estação:

Mudei de fase.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Clichê declarado

Amar-te-ei
Assim,
Com todo amor
Que há em mim.
Amar-te-ei, talvez,
Até o fim,
Visto que, no fundo,
Eu vim aqui mesmo
Para dizer que sim,
Te amo.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Arrebatamento

As tais
Paixões 
Avassaladoras,
Não cabem
Na calma,
Mas cabem
Nas dores,
Nos dramas.

Não cabem nunca
Na cama solitária.

Em qualquer espaço,
Sozinha,
A paixão
É um vão
Infinito,
Esperando

Um par
Para ser
Preenchido. 




segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Ver-te, olhos verdes

Que armadilha,
Esses olhos verdes...
A milhas e milhas
Distantes de Minas,
Ver-te tem sido
O clima mais agradável,
Nesta ilha fria
Chamada Irlanda.

Ver-te tem sido,
Dentre todos os cinzas,
Os meus momentos
Mais azuis.
E tem sido o auge
De vinte e tantos anos
De puro e duro amadurecimento.


domingo, 8 de dezembro de 2019

Palavras livres

Para a escrita,
Além do amor,
Aquilo que me irrita,
Que gera
Um grito
Silencioso.

Para a escrita,
Um estado
De espírito,
Repleto de atritos
Portando-se como
Artista.

Para a escrita
O hipócrita
O honroso
O bonito
O horroroso,
Menos o restrito.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Apropriação

Para todos os lados
Que tenho olhado
Percebo
Que nada foi feito
Para mim.

O ser humano
Possui
Uma mania
Estranha
De transformar
Tudo,
Entre a terra
E o céu,
Em seu,
Quando, por fim,
Não cuida
Nem de si.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Perspectiva

Quem vive 
Só 
Sabe 
O valor 
Da companhia.
Quem vive 
Sem sol
Sabe
O valor 
Da luz do céu.
Quem vive
A sua história 
Sabe 
O valor 
Do que, supostamente, 
Não importa.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Dias de vida

A vida
Não será fácil
Nem para os pássaros
Que aproveitam a brisa.
A vida
Vai lhes cobrar
O dia da caça,
O dia de encher a pança.
A vida
Não será um mar de rosas,
Mas será bonita,
Só por ser mar.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Impedido

Nus,
Nós
Dois
Seríamos
Um.
Mas nós
Não nos
Permitimos.
Nós dois
Seremos
Sempre
Dois.

Ao universo

Obrigada
Por me dar
A capacidade
De aprender
E, por conseguinte,
Conseguir.

Obrigada
Por me dar
A capacidade
De sentir
E, por conseguinte,
Entender.

Obrigada
Por me dar
A capacidade
De existir
E, por conseguinte,
Transformar.

sábado, 30 de novembro de 2019

Calmaria

Aponte
Um caminho
Que me leve
À paz.

Aposto
Que será
Algum lugar
À beira-mar.

As flores no jardim também morrem

Artesã
Do hoje,
Amanhã
Não sei
Se estarão vivas
As flores,
Ainda que fiquem
No jardim,
Ainda assim,
Até mesmo
Com todo cuidado
Também morrem
As flores,
Alguns amores.
Pois que fiquem
Com muito zelo
E carinho
Até a hora de partir...

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Silêncio

O não dizer
De um anúncio.
As palavras
Que nunca
Presenciei,
Que não
Presencio,
O silêncio.

Se não tivéssemos
Chegado ao fim,
Tampouco
Estaríamos no início.

Entre o procurar
E o esquivar
Houve tudo.
Mais que tudo,
O silêncio.

Todo dia é dia de nascer

Minhas escolhas,
Determinante
Futuro.
O domínio
Sobre o mundo
O mundo sobre mim,
Um dominó
Que não domino.
De domingo a domingo
Sonho acordada,
O minuto passa
Enquanto estou dormindo.
Não sei nada
Sobre a vida.
Tudo que eu disse ontem,
Tudo aquilo que você me diz
Não pode ficar para sempre
Porque tudo já mudou
E somos aprendizes.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Falha da fenda

As portas
Fechadas
Abrem caminhos
Para a suposição.
As portas
Abertas
São o que são, 
Não deixam tantas brechas
Para a imaginação.
As portas,
Contraditórias
Como somos nós,
Também geram ilusão
E fazem histórias
A partir dos "nãos".

Um olhar novo, de novo

Começar do zero,
Começar com medo,
Começar tarde,
Começar cedo,
Começar
De qualquer jeito,
De algum jeito,
Dê algum jeito
De recomeçar,
De estar sujeito
A tudo,
Principalmente
Ao novo,
Porque os nossos olhos
Merecem ver
O mundo.

domingo, 24 de novembro de 2019

Pra valer

Dê-me mil degraus
E subirei,
Quase todos os passos,
Num grau de satisfação,
Com estilo
De quem paga promessa.

Não meço força
Com a dificuldade
Quando sei que vista,
Bem lá em cima,
É cansaço
E recompensa.


sábado, 23 de novembro de 2019

Questionamento

Haverá o dia
Em que a risada
Será totalmente de graça
E a piada será simplesmente
Sobre como fomos
Tantas vezes
Infelizes por sermos
Obrigados a sermos engraçados,
Num mundo desgraçado demais?



segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Desenredo

Hei de viver
Um dia de cada vez.

Possivelmente, essa dificuldade
Não é o fim.

Pois que, se fosse o fim,
Não haveria dificuldade.

Dias de si, de não, de sim

Tem dias
Que a poesia
Não vem,
Que as ideias
Se esvaem
Feito nuvens.

Tem dias
Que sou ninguém,
Porque sou tudo,
Que vivo aquém
Da realidade,
Porque sou sonho.

Tem dias
Que, independente do que seja,
Amanhã,
Será ontem,
Nem tão depois assim
De hoje.



sábado, 16 de novembro de 2019

Uma visão em cada qual

Ninguém
Entenderá 
Inteiramente 
A sua versão 
Da história.

Quase todos dirão 
Que fostes errada,
Contraditória.

Que seja.

A visão do outro,
É do outro. 
E só sua, a visão total
Das suas vitórias,
Das suas tragédias,
Da sua trajetória.

Instantes

A paisagem
Diante de nós 
Muda, a cada instante.

Nós, ao admirá-la,
Como poderíamos 
Também não mudar?

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Tema central

Algumas relações
São imprescindíveis
Encerrarem-se
Com o tempo,
Como é o ponto
Na poesia.
Na hora certa, arruma-lo
Para colocares um final
E não fugires do tema central.


Distância imaterial

Todas as horas
São feitas da espera
Que outrora foram
Moras que moraram
Em nós,
Onde não conseguimos
Estar,
Por querer ficar em um outro alguém,
Em um outro lugar.

sábado, 9 de novembro de 2019

Trevo de quatro folhas

Tive que suar
Como gotas de orvalho
Para ser sua,
E não fui.

Tive que me molhar
De chuva,
Para ir embora,
Mas fui.

Para ser de alguém
Não há que se suar tantas gotas,
É mais questão de sorte.
Ou gosta ou não gosta.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Incalculável

Aqui, escrevo 
Três coisas
Que não se pode mensurar: 

As reflexões que criam as águas 
A amplidão da visão de águia 
O tamanho de um amor com régua infinita.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Solidariedade da solidão

Servi-te
De mim
Servi-te
Das minhas
Horas
Servi-te
De choro engasgado
Quando fostes embora
Servi-te
De serva
Serviu para
Ver o quanto
Ficar sem você
Me melhora.

domingo, 3 de novembro de 2019

Rota das gaivotas

À semelhança do vento
Que embarcam as gaivotas,
A mudança nos guia
Por determinadas rotas
Que não há como pestanejar
Ou ir contra...
O importante é abrir as asas
E se deixar levar,
Para poupar energia
E ir mais longe.

Às vezes,
Mais do que a chegada,
Admirar a paisagem
É o que conta.


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Precipitações

De primeiro
Em primeiro,
Um outro olhar
Reclinado
Em meu ombro.

Uma chuva, lá fora,
De deslumbre
Em deslumbre,

Sinto saudade de ontem,
Do tempo ocorrido,
Não tão antes
Deste inverno úmido
Em novembro.

Os olhos não mentem

Para
Você 
Nós 
Somos
Uma ideia
Medonha. 

Mas suponho,
Pelo seu olhar,
Que você
Também sonha 
Com a gente,
Quase todo dia. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O que há de vir

Histórias
Também são feitas
De ausência
De momentos,
De quem,
Sem saber,
Nos apontou
Um futuro
De trajetórias
Bonitas
Com outrem.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Portas e portos seguros

Um porto é
Seguro
Quando partimos à deriva,
Nos portando como marinheiros,
E podemos,
Por fim,
Retornar a ele.

Uma porta é
Segura
Quando podemos abri-la
Para sair do conforto,
Para escrever nossos próprios contos,
E, então, voltar,
Sempre que estivermos prontos.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Original

Para ser,
Ser uma,
Ser minha,
Ser tua
Metade
Ou totalmente
Inteira.

Para ser,
Ser eu,
Ser outra,
De outrem,
De ninguém,
Diferente de ontem,
Ser você mesma.


Consistência

A natureza,
A ciência
Estão aí
Para mostrar,
A conveniência
De uma vida
Inteiramente regrada
Não cabe em toda
E qualquer existência.
A mim não agrada.
E sempre fui vista,
Um pouco, como louca
Por optar, verdadeiramente,
Pela minha essência.
Se não agrada aos outros,
O que fazer?
Paciência...


domingo, 13 de outubro de 2019

Roda simétrica da purificação

O início
Está no fim
No fechar
Para abrir
No não
Para o sim
No golpe
Para a mão
Que empurra
Com toda força
A dor
Para bem longe
De mim


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Aprendiz

Apesar de aparentar
Esse jeito velho,
Sou verde,
Nasci há pouco da terra.

E ainda terei que amadurecer
Muitas e muitas vezes
Para conseguir encarar
As verdades da vida.

Transformação

Admito,
Sou ambivalente,
Um pouco heterodoxo.
Entretanto,
Às vezes,
Admiro
Meu jeito valente,
Um pouco sem nexo,
Meio custoso,
Por não ser o mesmo
Por adotar sempre o novo.

Encaixe

Quando sugeri
A mim mesma
Que me jogasse
De quando em quando
Em algo novo
Não poderia saber
Que surgiria
Algo tão nobre
Como o amor
Em nós.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Condição de gratificar

Quando nos aproximamos
Da morte
Entramos numa orgia
De autocomisseração.

Pedimos perdão por quase tudo
Como que num estado de transe,
Pedimos bênção ao mundo

Alguns rogam para permanecer,
Outros apenas agradecem.

O irônico é que
Só podemos gratificar
A qualquer coisa,
Estando perto da morte,
Quando estamos bem aqui,
Com vida.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O último desamor

A reciprocidade
Do amor
Nunca morou
Na minha cidade
Nem no meu estado
Nem no meu país.
Nunca morou
No meu mundo,
E todos os amores
Me foram muito fatais.
Depois de você,
Falo sério,
Não quero amar
Nunca mais.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Quotidiano

Uma casa
Um pouso
Uma caça
Uma pausa
Um ovo
Um passo
Um voo
Um passado
Um novo
Pássaro

Águas serenas

Com provas
Aprendi
Que a raiva 
E a mágoa
Turvam a mente
Como barro
Em águas agitadas.

Só se consegue ver
Verdadeiramente bem
O interior e o fundo 
Quando há calma,
Então o barro desce
E o lago não parece mais
Imundo. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Versinho simples

Ainda ontem
Eu sentia
Uma angústia,
A alma cheia de coisas,
E ao mesmo tempo
Tão vazia...
Então, não sei muito bem como,
Por acaso,
Talvez por força divina,
A agonia pegou as palavras
E as transformou em poesia.

Confronto mundial

A guerra
Travada em nós mesmos
Aponta o dedo
A quem erra
E transforma a fera sanguinária da selva
Numa criatura menos perversa,
Por agir por puro instinto da natureza
E não porque sente raiva.
A guerra
Travada em nós mesmos
Aponta o dedo
A quem erra
Como se todos sobre a Terra
Fossem incorretos
E só "eu" a criatura perfeita.
A guerra
Travada em nós mesmos
Com ou sem armas
Mata o corpo
Arranca-nos o dedo
Mete medo
E nos faz guerreiros
Com o objetivo de chegar primeiro
Em uma corrida
Que saímos mais ou menos perdendo
Porque decidimos
A qualquer custo
Ganhar.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Simplórios milagres

Ali está o milagre,
No fim triste que gera
Um recomeço alegre.
Ali está o milagre,

Nos pequenos detalhes
Da simplicidade
Que fazem dos gravetos talheres.
Ali está o milagre,

No misturar das cores
No combinar dos acordes
Que ilustram algumas flores
E traçam alguns amores.

Autoestima

Com consciência
Limpa,
Se eu considerar
Que devo, 
Sim, vou desistir.

Com consciência 
Impar,
Se considerar
Que posso,
Sim, vou insistir.

Mas não vou fazer
Mais por ti.
Vou fazer porque quero,
Vou fazer mais
Por mim.


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Oração aos céus

Promote,
Que independente
De sul
Ou norte
Você vai me guiar,
Vida,
Por caminhos
De sol
E de sorte.

Persistir

Ora ou outra
É claro 
Que caímos
Em luto.

Ainda assim
É inevitável
Que continuemos
Lutando.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Mudez da alma

Tal qual a poesia
O amor sofre influência
Da palavra dita
Do indício de desejo
Do impulso determinante
Para o início
De tudo.

Tal qual a poesia
O amor carnal influencia
Na ânsia de profundidade
E - de tão profundo -
Não grita ao mundo.
Fica mudo, tão imerso
Que silencia.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Um presente do presente

Antes de mais nada
Escrevo-te
Para lembrar,
A vida
É um instante
Finito.

Ontem mesmo
O hoje parecia feio
E o amanhã tão bonito...
E o que era
Para ser feito
Não foi feito.

Antes de mais nada
Escrevo-te
Para lembrar
O amanhã nem chegou
E vai terminar.
Portanto, antes de mais nada

Foca no agora.

sábado, 7 de setembro de 2019

Excedente

Antes de você
O amor era
O excesso de algo
Que numa quantidade
Normal
Transbordava.

Agora,
Acredito
Já não ser
Mais possível 
Definí-lo
Com tamanha moderação.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Posturas

A posse
De algo
Não nos torna assim
Ou assado.

Porque quando algo
Se deteriora
Ainda seremos nós
Mesmos.

Pois que não é
A posse sobre algo.
É sobre a pose
Sobre algo.

Ou seja, a posição, a atitude, a postura
A pose sobre a posse
O poder de ser
Independente de portar.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Identificação

Saúdo o espelho
Cara a cara de mim.

Olhos fechados,
Dia a dia de joelhos.

Testemunho
O meu projeto acidental.

De ser grata, de ser eu,
De limpar a aura, de apostar no ímpar.

Ainda que seca
Menos cruel

Sempre deserta 
Um pouco menos ranzinza.

Ver
O que a vista avista.

A beleza dos dias azuis
A riqueza dos dias cinzas.

Dias de ausência
De gente.

Dias de desenvolver-me
Sozinha.

Dias estando como eu gostaria,
Solitária.

Dias de gentileza (de ninguém):
Minha.




Bem-agradecida

Joguei-me em ti
Como se tivesse
Pulado daquele penhasco
Na praia dos ventos.

E lá não há perigo
A profundidade permite
Qualquer acrobacia.
A natureza é mesmo divina.

Por outro lado,
Pular em você me lesionou tanto...
A natureza é mesmo divina,
Ensina até mesmo onde devemos pisar.



quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Distração

Às minhas razões
Às minhas raízes
Às minhas raivas
Às minhas idas:

Dou meu diagnóstico.
A única saída
É algum tipo de substância
Que cause amnésia.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Natureza crua

No mais,
As fotos
São imagens
Quase perfeitas
Que imagino
Bem-acabadas
E que podem ficar
Para sempre.

E são apenas
De fato, apenas
Miragens
Quase perfeitas
Por serem de flor, de cor
E de gente.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Funesta

Estes pedaços
Caídos por terra
Regeneram-se em mim


Todas as vezes
Em que você me enterra,
Inteira, num abraço.


A causar-me o caos,
Estimula-me o dia,
Em pequenos fragmentos, vicia.

Por acaso,
Deixa-me insaciável
E, num desprezo confuso, some feito vulto.

Que duro, o descaso.
Que duro, o tempo ulterior ao nosso laço,
O futuro.

Que árduo,
Este prazo perpétuo
Em que me perco, em que perduro.

Suas palavras afetuosas,
Em curtas doses, afetam,
Soam como insultos.

Neste intervalo eterno,
O mundo é um inferno
Sendo você, assim, tão oculto.

E eu, que julgo-me culta,
Que tanto curto a vida,
Agora, sou uma estranha, uma esquecida.

Aonde quer que eu esteja, este tumulto.
Pareço mesmo padecer - sem luta, sem nenhum luto -
Em milhares de pedaços lançados ao túmulo.

Por pouco...

A substância
Que levo em meu peito
Chamo de paixão de amador.

E a linha para o amor é tão tênue,
A discrepância é tão pequena,
Que quase amei milhares de mulheres.

Mas, inusitadamente,
Acabou sobrando
Pra você.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Empreender-se

Li e reli
E, portanto,
Constatei
Que não constam
Nos poemas
As horas exatas
Que gastei
Ao estar com você.
É que, na verdade,
Corrijo o imensurável:
Ganhei muito, não gastei.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Abertura prática

De tanto levar soco
Fez-se um buraco
Em meu corpo oco.
Ocorre que o furo,
Como se fosse
Uma via respiratória,
Serviu-me
(ainda não posso dizer
de vitória)
De bênção
E de passagem de vento
Para alçar voo
Ao infinito.

Espanto à flor azul

A flor
Azul escura
Rara
Escultura
Da natureza,
Alegoria da terra,
Insólita na vida,
Como na pintura
De Frida Kahlo
É a alegria,
Quando surge,
Causa um fascínio
Um susto,
Um encanto,
Um delírio,
Como se quem viu
Fosse eu
A ver você.





segunda-feira, 17 de junho de 2019

Satisfação

Abastado
Ou abestado,

A felicidade não está
Do lado de fora.

Prova é que quem tem o bastante
Tantas vezes não é feliz.

Abastado
Ou abestado,

Vive-se carente.
De si, de ser, de sol, de reparar o som,

De ter o dom de parar
E olhar a lua no céu, os olhos dos seus.

Abastado
Ou abestado,

Há bastado, para mim, aceitar-me,
Entender a vida para ser feliz.

Ainda que eu seja
Meio bicho do mato, meio besta,

Agradeço, pois
Há bastado.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Diálogo de um eu

Vim para lhe dizer
Que estou farta
Da sua demora,
Desse monólogo
Com hora marcada,
Para as histórias
Do diálogo de um.

Pois vou-me embora
Tirar do peito
A dor que você construiu
Como abrigo, onde você mora,
Ignorando
Todas as despesas,
Todas as contas.

Meu até logo
Tão custoso e demorado
Significa
Até nunca mais.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Pingos d'água para quem tem sede

Pegou a minha mão
E eu forasteira
Fora de mim, senti tudo

Mais que tudo
Senti-me
Inteira

Ali, a cama foi, por um lado,
Um mar de felicidade
E eu estava bem na beira...

Quem sabe, um dia, eu consiga entender,
Sendo eu tanto mar,
Suas lágrimas por ser você só goteira.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

In verso

Invisto
No universo
Através
Do verso.

Sem verbas,
Com poucos verbos,
Centenas e centenas de vezes,
Sem você

Sou mais ou menos
Um nada
Sou um nó atado, sem nós.
Um tipo feroz,

Com voz sombria
Lotada de desejos
Inversos ao meu ser.
Sem você

Sou inverno eterno,
Adversária,
Em enorme cavalaria,
Combatente de mim mesma.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Voltas e meias

Pedistes a mim
Que eu falasse sem rodeios

Impossível!

O mundo mesmo
Roda, roda, roda

Incansáveis vezes

Para dar-nos
Volta e meia

Uma resposta final.

Luta autorgada

O tempo deu-me a noção
Que não importa
A força que eu faça
Para subir na vida

Mais força ainda
É necessária
Para ficar são
E não sucumbir na vida

terça-feira, 14 de maio de 2019

Delayed words

Of all the things that
So many times
Come,
The poetry stays


And falls into no more
Because it asks
Not about my story
But about yours.



sexta-feira, 10 de maio de 2019

Letras demoradas

Das coisas que
Tantas vezes
Chegam
E caem no nunca mais

A poesia perpetua
Porque pergunta
Não sobre a minha história,
Mas sobre a tua.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Riacho acima

Existe um riacho
Na parte de trás da casa rosa
A poucos passos
De onde demos as mãos
Pela primeira vez
Até tudo se transformar
Em várias vezes
E nunca mais.

O riacho vive tão bravio
Descendo ladeira abaixo
Como se fosse ofendido
Pelas pedras no caminho
Pelos peixes pequeninos
Pelo céu antagônico
Que também foi testemunha
Do nosso amor contemporâneo.

Perto do riacho
A vida parece mais fraca,
Mas toda comparação é um pouco injusta.
O riacho, eu acho,
Pode ser uma paródia da vida:
Corre à frente, é cheio de obstáculos, recebe todo tipo de gente, foi e não volta mais.
E é finito, mesmo que não pareça.
Talvez por isso eu tenha tanto medo de entrar no riacho.

Ficávamos observando
Qual pedrinha chegaria mais longe
Qual peixe aguentaria a correnteza...
E eu sempre perdia a aposta
Com tanta alegria
Por ver você vencer, por coisa à toa.
Meu cobertor azul marinho
Passou a ser um pouco fino, um pouco frio.

Ver o riacho sozinha
Não tem muita graça. Nem ver as garças a caçar ventanias...
Você tinha razão, a vida é fraca
Perto do riacho, perto do céu, perto da beira
A vida é fraca.
Mas abraçada em você,
No frescor exagerado do riacho,
A vida foi fresca e bonita.




terça-feira, 7 de maio de 2019

Rotação


Eu era outra
Outrora fui louca
Fui dura
Hoje, sou história
Com clímax
E hora marcada
Para o fim.

A dona do definhamento
Ainda não veio me buscar
Na minha bicicleta
Nem na minha cama
Nem na calçada de pedras
A caminho da estação.

Aprendi na escola da vida
Que o mundo gira, gira, gira
E eu, necessariamente,
Tenho que girar.

Acredito que estou pronta
Para ir embora,
Suponho que todo mundo está.

Mas gostaria de pedir 
Para me deixar
Dar, pelo menos, mais algumas
Trezentas e sessenta voltas pela Terra.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Navegante

E pergunta-me
Se não ligo de ficar
A ver navios.

A ver navios, não.

Nem de voltar ao início
Nem de mergulhar sozinho no rio
Nem de encarar o mar bravio
Nem de sentir muito frio.
Mas preocupa-me, deveras,
Tornar-me vazio.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Venda de amar

Você arranca todo
O meu mérito

Porque amar-te
É fácil demais.

Mesmo que o amor
No mundo torne-se mísero

Amar-te é fácil demais.
Ainda que você,

Perca as estribeiras
E metamorfoseie-se para um inseto

Estará isento
De qualquer desamor.

Porque amar-te
É fácil demais.

Cenário censurado

Paira uma vista lá fora
De arrancar suspiro.

Mas diga-se de passagem,
A cama onde a gente mora

Essa paisagem, sim,
Que seria estímulo ao mundo.

Pena ser o nosso retiro
Lugar tão proibido.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Enamorada

Que me busque
Com mãos floridas
Ou sem buquê

Vou de olhos fechados
Guiada pelo toque
De pele de pétala,
Ou pele pelada.

E não vou pelas flores
Vou por você.


terça-feira, 23 de abril de 2019

Ironia

Há algo de mágico
Na forma como a vida salva
Quem a maltrata.

Há algo de trágico
Na forma como a vida ameaça
Quem a venera.

Há algo pacífico
Na forma como a vida ensina
Quem a decifra.

Limpadela

Pegue todas as coisas
Todas as notas
Leve o peso da honra
O leve outrora
Pague a mora sem juros
Me deixe aqui, no escuro.

Quantos nãos
Não mais terei que lavar
Graças ao límpido
Finalmente
Da vida manchada.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Fobia de amor

A diferença
Entre você e eu

É o medo.

Uma tem e a outra não,
Respectivamente.

E isso é tudo.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Perigo na estrada

Salta do peito
O coração.
Me assalta a alma
Sempre que te avisto
Dispara de tal forma,
Sem aviso,
Que se fosse arma de fogo,
Por certo,
Meu corpo já estaria
Estendido pelo piso.



A pessoa escrita torna-se eterna

Pelas minhas mãos
Dei-te um milhão de vidas.

E creio que em nenhuma delas
Você me permitiria ficar. 

terça-feira, 19 de março de 2019

Duas almas

No paraíso
Padeci
Porque era você
Entre quatro paredes
Para mim.

Porque era eu
Parada
Como se estivesse em prece
Sem pressa nenhuma
Ali, só para você.



segunda-feira, 18 de março de 2019

História de quem foi feliz

Ao fim do dia
Tu passarás
Por provação.

Não deixe que os monstros
Te tirem o chão.

Ao fim do dia
Encare sua estadia na terra
Com ousadia.

Aproveite sua vida
Como se fosse sua comédia preferida.

Quando começar o dia,
Sua existência será uma paródia das mais bonitas...
De quem pegou a dor e transformou em alegria.





Infeliz fênix do século XXI

O sofrimento
Me pega desprevenida
Me bagunça a cabeça feito o vento
Dilacera-me o peito
Me invade a vida.

Minto ao lamento.
Finjo pagar a minha dívida.
Ao fim do dia, funciona.
O que eu invento
Torna-se o meu renascimento.





quinta-feira, 14 de março de 2019

Árvore

Ainda acredito
Na fortaleza acima das estrelas,
No poder que revela o equilíbrio. 

Não acredito mais
Que a crueldade e a rudeza
São mitos contados por deuses.

Agora, admito,
A vida é uma árvore prestes a desabar.
Mas, ao focar na raiz e na base interna, ela aguenta.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Por dentro (e por fora), sangra

A dama
Não é jogo
Para mexer,
Como entretenimento,
Do sem discernimento
De certo e errado.

A dama
Não tem que ariar a panela,
Não nasceu para viver em cela.
Usa maquiagem para sentir-se bela.
E não usa nada, a opção é dela.
Esposa, solteira, donzela, puta guerreira!

A mulher
É livre
Para conceber, para não querer,
Para viver, não para ser morta.
Para ser qualquer coisa, menos saco de pancada.
A mulher que é de outra, é. Ela é de quem ela quiser.


quinta-feira, 7 de março de 2019

Convulsão poética

Na mente
A poesia.

Na gente
A cultura.

Na revolução
A poesia cultuada.

Na mudança
A gente cutucada.

quarta-feira, 6 de março de 2019

terça-feira, 5 de março de 2019

segunda-feira, 4 de março de 2019

Arte, por assim dizer

Ao fim,
A arte trabalha,
Para a alegria
E para a tristeza,
De certa forma,
Sem distinção,
Com a mesma urgência.

No meio, um pouco
Da mesma maneira,
O importante é que toque.
E aí é que está!
Quando toca, tira
Um pouquinho do gelo
Armazenado no estoque.

sábado, 2 de março de 2019

Coragem

De certo,
Vangloriar-se
De ser quem se é
Acarreta
Em demasiados dilemas.

Pessoas que louvam-se
Arrancam caretas
Tornam-se feias
São quase deserdadas
Jogadas num deserto de areia movediça.

Mas arria essa cabeça, mulher.
Você nasceu na forma exata para ser quem - e como - quiser.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Principalmente, principiante

A bola dourada
A esconder-se pelo mar,
Muda de palavras,
Tem poesia que afoga
Os guardiões das falsas tecnologias,
A verem estrelas brilhantes
Pelas telas dos celulares,
Desgovernados pelos jovens.

Em todas as idades
Os humanos são um pouco jovens.
Amadores diante da morte,
Noviços diante da vida.
Aprendizes a escreverem poesias,
Tentando combinar rimas.
E, por vezes, as vozes que não nos falam
Não cabem em poemas.


Mundo humano

Ambíguo
O mundo.
Pede a riqueza,
E, para tê-la,
Alguns perdem tudo.

O amor,
A paz,
A calma,
O amor e a paz na cama.
O amor e a paz na alma.

Ambíguo
O mundo.
Pede o amor próprio,
E condena, sem dó,
Os que olham para o próprio umbigo.

O mundo nos ensina
A olhar para o próprio umbigo,
A sermos inimigos.
O mundo alimenta a imagem, a competição,
Porque animal de cadeia não pensa na sua ação.

A vida
É uma comédia,
É uma vaga memória
Do que deveria ser.
A vida não tem escapatória, tentam esconder até mesmo que vamos morrer.

Escrita

Essa jornada
Parece um jogo, uma loucura.
Veja só, nasci como um nada

E se hoje eu morrer
De todas as palavras da lista,
Anota que fui solitária, mas fui artista.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Parceria com a insônia

Uma noite a menos de sono,
A mais de si mesma,
Tentando desatar nós,
Forçando a barra do sonho
Para encontrá-la.

Ruminando monstros
Arruinando-se.
Estando tão só
Que dá dó de estar ali.
E tem quem queira estar.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Personalidade

Essa coisa de envelhecer
Eu não tenho certeza...

Não sei se a fragilidade
Torna-se menor com a idade,
Não sei se ficar madura
Torna a gente mais dura...

Eu sei que eu tenho ficado
Um pouco mais boba,
Um pouco mais na moda
De vestir o que quero, por dentro e por fora.

As pessoas deveriam ensinar, logo na infância,
Quanto sangue derrama-se antes mesmo da vingança,
Que acordar traz esperança
E que a vida é todinha mudança.

Madrugada sem festa

Tenho tido esse estranho sonho
De estar com você no jardim suspenso
Feito de lençol e de escuro
Tendo apenas o suspense
Do nosso abraço e toque proibidos.

Tenho tido esse estranho sonho
E, estando acordada, chega a ser medonho
Fazer-te sonhar também.
Tenho tido a dúvida,
Até quando você permanecerá envolvida?

Até quando dura a sua dívida?
Algum dia você será minha?
Por quanto tempo duas vidas ficam juntas sem serem divididas?
É, pelo menos, já cicatrizamos uma das feridas.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Saudade de morar com você

Cantei todas as músicas
Peguei no sono e ali estava você,
Mais uma vez.
Quanta saudade mora em mim,
Eu não sei,
Nunca pensei que eu fosse tão grande...
Cantei todas as músicas,
Reguei até o canteiro de flor.
É... confesso,
Eu queria mesmo é estar com você
Em todos os lugares em que você for.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Pena do pobre humano

De um jeito ou de outro
Quem anda pela vida
A mercê do ouro
Anda também a pedir socorro.

Não cante a vida aos soldados

Chateou-se
Repentinamente
Diante da ideia contrária.
Mas como poderia esperar coisa diversa?

Como poderia pedir compreensão,
Se até mesmo quando o seu poema mais inteligível
Foi lido
Não foi captado nem entendido?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Junção

Sim,
O amor une.

As pessoas convivem
Por amor.

As pessoas
Se acostumam.

As pessoas
Combinam o trato
Do amor.

As pessoas costumam
Perder-se
No ato de amar.

As pessoas
Se esquecem
Do hábito de amar.

Quando falo do invisível

São tão falhas
As palavras
Que, quando falo de amor,
Não me livram
Das migalhas
Que oferto a você.


Voar

Onde vivo
Vivem
Os pássaros
A favor da natureza
Tendo sementes de paineira no café da manhã.

No meu interior,
Modesto,
Também ando comendo grãos,
Com apreciável obediência,
Sinto a flor,
Observo o rosa em alto relevo...

O amanhecer é uma escola.
A direção ao azul é uma escolha,
Eu também escolhi voar.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Gueixa

Espelha-se
Em ser aquela gueixa
Em sofrer as paralisias
Da vida metódica
Ordenada por nenhuma melodia, por nenhuma flor,
Meio oca, meio vazia.

Espelha-se
Em ser aquela que não se queixa
Em sofrer as paralisias 
Da vida metódica
Ordenada por nenhuma discórdia, por nenhum amor,
Muito pouca, sem poesia.


Para você ficar

De certa forma,
Foi dito ao universo
E espero, bem no íntimo,
Que você receba o recado.

Tirei-lhe das minhas noites e dias
Para que você permaneça,
Sem mágoas, no meu próximo Natal.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Nota ao interior

Tolice,
Crer que a ideia
Permanecerá intacta
Sendo variada gradação do cosmo.

Tolice,
Crer que o sentimento
Sobreviverá sólido
Sendo eu cacto repleto de espinhos.

Tolice,
Acreditar na glória
Fantasiada pelo sistema
Sendo a vida, primordialmente, essência.


A cama é altar para absurdos

Amaria-te
Daqui até a eternidade
Mas o sono vem,
O tempo me invade,
A música torna-se velha,
Meu pensamento me bate.

O que resta de mim, no fim do dia,
Além do agradecimento e da ignorância,
É a idade arcaica do solitário.
E amar-te
Até a eternidade
É ideia que quase não fica, mas ainda fica, bem no fundo, porque criei-a por você.

Rascunho para o universo

Gentil e cortês
É isso que sou.
Poderia eu falar-te
Em tantos tons
Em infinitos níveis
Sobre o meu peito em chamas
E da minha mente excêntrica
Roteirizando nosso Carnaval em casa
Com fogueira e estrelas
Com a banda das cigarras.
Comigo tão mudada
Sem cerveja e sem cigarros
E, de manhã, com a certeza dos pássaros.
Poderia falar-te sobre a enchente
Que nunca sai nos noticiários,
Mas que arrasa com muita coisa
Que destrói a maior riqueza da vida,
Porque está aqui dentro de mim.
Agora, em sério
Fui tão sacana com outras
Que entendo o castigo de Deus.
Tenho me esforçado para melhorar.
E gostaria de saber,
Onde está a punição 
De quem nunca ousou mudar?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Crime hediondo

Por favor,
Saia da minha vida,
Como fazia antes.

Pois eu,
Sem palavras
Ou com elas,
Não consigo
Pedir-lhe que vá.

E ficar significa
Matar-me,
Silenciosa e demoradamente.

Por favor,
Não torne-se uma assassina,
Cruel e confessa,
De mim...
Por favor, você não é assim.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Aversão contínua

Tomada pela raiva
Pedi a maldade
Quando a noite chegou.
Veio o dia
Repleto de piedade
Serviu-me de cobaia,
Me usou.
Eu que sou tola
Eu que sou fraca na doença
Sou também amante da armadilha da descrença.
Me lanço tão fundo na agonia
Que a dor de um ano
Passa em um dia.
A ira de você
Vem em tão grande dilúvio
Que sendo você assim tão vil,
Tão fútil,
Me presenteia com imenso alívio,
Por eu não sentir culpa
Por sentir-lhe tanto repúdio.


Primeiro combate

Obrigaram-nos à felicidade.
Exigência árdua a quem segue ditames.

Primeiro, os homens perderam a bondade.
Depois, perderam o autogoverno, o livre-arbítrio.
E, então, escapuliu o discernimento.

Agora, a maioria marcha no escuro.
Encoberta por sua própria venda,
Turvada do que é acessível, claro.
Tão curvada...
Chega a dar pena...

Que lástima,
Olhar apenas para os próprios pés.
Também eu, às vezes, tenho olhado.

Tantos perambulam esquecidos do mundo.
Muitos divagam contaminados pelo relógio, pensando apenas no futuro.
E se esquecem do tempo importante, oportuno.
Esse agora, esse presente.
"É hora!", enunciam os deuses cósmicos.
Do cair do temporal, do sol de rachar
Da flor que morre e cresce em temporadas.

Obrigaram-nos demasiadamente à felicidade.

Hoje, suspeito que quem é feliz
Arrisca-se
A não entreter-se no jogo mundano.
A não cumprir as regras.
Eu retiro-me.
Essa brincadeira de mau gosto,
Eu chamo de guerra.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Para dizer o poema

O poema não necessita de muito
Para dizer
O poema
Basta ter intuito
Basta ser inteiro
Basta arder.

Milagre

Pulsa o peito.
Milagrosamente,
Aceito o afeto.

Que festa é
Sentir-me repleta
De alguém
Às vezes sim,
Às vezes não,
Cordialmente meu.

Lapidado em forma
Impecável.
Para sujeitar-se
A mim,
Sujeito tão
Malfeito.




Declaração de amor próprio

Falo sério.
Estou tentando cuidar
Verdadeiramente
De você,
Ao cuidar, com muito carinho,
De mim.
Mas a cura vem
Pouco a pouco
De forma arrastada.
Tenho a alegria de falar sem ter a voz rouca
Sem ter a cabeça louca de tantos tragos
Sem ter, eu mesma, me causado tantos estragos.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

Vida ficcional

Vale menos
O dinheiro que sana
A dívida
Que o amor escrachado
Que repara
A dúvida,
Prêmio da película romântica
Vívida e poética
Vivida pela majestade e pela criada,
Errônea e imutávelmente.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sê inteira

A onda cresce
Para desmanchar-se,
Sumir de vista.

A onda quebra.
Para nascer,
Sê inteira, para inteirar-se e ser todo o mar.

À saúde mental

Compreendeu,
Caminhar sozinha
Não é tragédia.
É estratégia
De quem anda
À procura de vida.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Santo do pau oco

Firme o pé no chão
O tremor desaba
O sujeito que fala imbecilidade
Quando estou sã.
No mundo não há
Quem não seja santo.
Todo mundo é sacro, olhando para si.
A criatura que aponta o dedo,
O fedelho insano,
É aquele que te dá
E que tira sarro.
E me usa de saco
De pancada
Quando estou bêbada.
Pois hoje estou sã
E sou artesã da minha existência.
Dê-me meu livro de budismo,
Quero curtir a vida na sua ausência.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Palavras ardem

Não escrevo para rei
Para réu
Para regente
Para artista
Para ser gentil
Porque é bonito à vista.
Escrevo porque a palavra
Belisca.

Do vazio à poesia

Caçava poesia,
Na juventude,
Em vão,
Nunca a achar.

Procurava significado
Para o aperto no peito,
Inutilmente.

Tem coisa que é sem razão.
Tem coisa que não chega.
Tem dor que nasce para ser amplidão.

Caçava poesia,
Na juventude,
Em vão, não.

Senti.

Do nada, eu nasci.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Sacrilégio

Ademais do amor silencioso
Resta apenas o ócio
Das prósperas palavras abandonadas.

Ademais da partida
Resta, em mim, você, todas as horas
Todos os dias, me arrancando a vida.

Ademais da coragem, endureci.
Não peço perdão e peco por prazer.
Tornar-se madura é saber que a gente não dura.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Fidedigna

Porque grande parte do que digo
É verdade,
Acredito em quase tudo
Que me dizem.
A maioria das palavras
É fiável,
Mas, em determinado ponto, 
Eu duvido até mesmo de mim...


quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Essência oculta

Matuto sempre,
Qual a intenção de Deus
Ao colocar o mais importante
Escondido pela epiderme?

Qual plano teria?
Envolver as pessoas pelo corpo, pelo rosto?Mostrar que o galante semblante não dura,
Que o que resta de beleza é o resto?

Qual o propósito, Deus?
Ao ocultar a essência dos seres pela pele,
Ao cegar as visões de raio x,
Ao expor a olho nu apenas a externa cicatriz...

O que quer ensinar, Deus? 
A razão pela qual devo me afastar de quem me corta?
O guia para que eu abra algumas portas?
A revelação da beleza que realmente importa?

Eu sei, Deus, o amor não é ínfimo diante da vida.
E sei, quem fica por último
Enruga o rosto, mas tem o sorriso mais nítido.
Creio que tenho aprendido, Deus, a essência da vida não está na pele, está no íntimo.

Espaço contíguo

Entre a chuva e seu véu
Há um ruído de vento
Que só é mesmo perceptível
Quando fico perto de me molhar.

Entre o sol e o chão
Toda casa com janela fechada
Tem um corpo que se esconde da água
E perdura numa sequidão tristonha.

Entre eu e você
Há estruturas tão distintas
Que nossa pouca distância
Impossibilita a alma de encharcar.



Quando quiseres

Posso te ignorar
Quantas vezes forem necessárias
E de nada adianta.
Todo o esforço lançado
Em te esquecer
É como puxar com força
Uma ovelha laçada:
Molesta, fere, lesiona.
E eu sou quase uma velha,
Ando cansada.
Não quero ter que fazer força.
Pois saiba que também não quero lutar por você,
Nem por ninguém.
Se o laço não acontece naturalmente,
Por si só, me perdoe,
Mas fico pela tangente.
Fico com qualquer gente,
Desde que queira ficar comigo.
Mas eu também tenho que querer ficar.
Por condolência, não vale,
Não funciona.
Igual amigo: ou é ou não é.
Se você não me quer,
Acredito que ficarei bem,
Não é que muitos me queiram,
Mas eu não sou mais mulher
De dar a minha caveira a tapa,
De ficar implorando o prazer
De quem nunca irá se satisfazer.
Por mim não, muito menos por você.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

9pm.

Com que amor
Você se deita
Com que amor
Você se esconde
Com que amor
Você sucumbe
Com que amor
Você responde
Com que amor
Você mente
Com que amor
Você se demora
Com que amor
Você vai embora
Com que amor 
Você namora
Eu não sei,
Te espero desde as seis.
Já são nove
E, mais uma vez,
Nada de novo.

Ser luz quando a gente se conduz