sábado, 27 de novembro de 2021

Foi quando tentei ser diferente dos outros 

Que também fiquei muito distante de mim.

Foi quando tentei me encaixar no mundo

Que também fiquei muito distante de mim.

Foi quando comecei a ser o que eu era,

Que comecei a chegar pertinho.

Eu não entendia antes que ser eu 

Já era, em si, algo único.


Uma tarde, um pêssego

Descasquei o pêssego na terça:

Um gosto de nada, meio amargo, bem sem graça.

Tirei o outro da geladeira, deixei-o sobre a mesa por quatro dias,

Descasquei o pêssego no sábado:

Um gosto doce de fruta, meio meloso, bem agradável.

Enquanto degustava, ia pensando,

Apesar do seu medo de amarelar,

No sentido figurado da palavra, 

Seria possível, algum dia, você também sair da geladeira,

Amadurecer, se abrir e se sentar à mesa comigo?

A poesia que o fim do outono me deu

Para mim o divino é isso:

Quando olho para o chão 

E percebo todas as folhas

Caídas das árvores,

Sei que algum fenômeno

Está acontecendo bem em cima de mim.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Aprendendo a dirigir-se

As velhas conhecidas versões de mim

Não morreram.

Frequentemente elas me visitam,

Aparecem do nada,

Não pedem licença,

Chegam falando alto, às vezes chegam a gritar, dão lição de moral e tudo...

A nova versão de mim

Apenas cala, escuta, entende a história, deixa as velhas versões se cansar...

Não é briga,

É estranho, difícil e novo.

Mas não é briga. 

Quando o novo toma a decisão

De calar,  perceber, escutar atentamente, acolher, incorporar e dar-se,

No fim das contas, como consequência, o novo é que toma a decisão.




Fragilidade do poeta

Ainda bem que, muitas vezes, sou poeta

Apenas quinze por cento do tempo,

De outra forma,

Mais do que isso significaria

Suicidar-se muitas vezes por dia.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Para mudar a história do que você faz sem me tocar

Em se falando

Da anatomia

Dos corpos,

Fosse você de novo minha,

Eu te viraria do avesso

De tal modo

Que, pelo menos por uma vez na vida,

Só para variar a história,

Poderia-se dizer

Que tive o seu coração na mão.


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Festival de dois

Caberiam ali,

Nos lugares em que fomos nós,

Mais de quinhentas pessoas reunidas.

Poderiam, ali, a céu aberto, debaixo de sol ou de estrelas,

Colocar orquestra colossal,

Qualquer evento de grande porte,

Qualquer festival.

Caberiam, ali, tantas e tantas pessoas.

Aquele imenso gramado verde

Enquadraria até partida de futebol.

E naquela orla de pedra, onde o mar desenhava a lua, bem na nossa cara,

Seria possível agrupar em torno de quinhentas baleias.

É incrível como nós,

Em todos os lugares que fomos,

Engrandecemos-nos,

Tornamo-nos imensos,

Ficamos, ali, em estado infinito, descomunal.

Em todos os lugares vazios,

O excesso do que fomos, apenas em dois,

Eu vejo bem agora,

Foi preenchido com tamanha quantidade,

Com tamanha profusão

Que qualquer um, se tivesse visto,

Consideraria os nossos encontros, mesmo,

Como um grande acontecimento:

Um espetáculo magistral.




sábado, 13 de novembro de 2021

Relação inventada

Ninguém nunca me tocou

Como você fez.

Eu nunca toquei alguém

Como você.

Você acredita em milhares de coisas surreais

Que só existem na sua cabeça,

Eu não sei de onde você tira a ideia de que tudo que vivemos juntos não significa nada...

Por acaso você se lembra?

Eu não sei o que uma garota tem que fazer para você acreditar,

Arrancar o coração do peito e te dar em mãos? 

Sacrificar a alma como premiação?

O que é que uma garota tem que fazer para você acreditar,

Se, para você, palavras e entrega não servem de nada?


Ser luz quando a gente se conduz