quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Bonecas de porcelana

A jovem coleciona bonecas antigas
E desespera-se de hora em hora
Quando vem o barulho devastador
Da aeronave se aproximando
Para pousar na pista ao lado.

Neste momento
Resta torcer com afinco
Para que as telhas singles fiquem intactas.
Parece loucura implorar a sorte todos os dias
Deitada no sofá da sala

E não rezar para que as bonecas de porcelana
Encontrem seu lugar no mundo,
Construam a sua sociedade de cerâmica,
Como há muito fez a civilização dos esquimós
Porque pertencem ao gelo

Não a um governo
A uma terra
A um natal.
Tem gente que pertence a qualquer chão
E gente que pertence ao horário da luz natural do Pacífico

E, portanto, torna-se raivoso, impaciente com a luz fria da Antártida.
Tem gente que não pisa na esquina de casa
Porque o sol faz mal para a vista
Porque a violência tem boa pontaria
Porque o príncipe não voltou da guerra.

E a gente obriga as bonecas de porcelana
A pertencerem às escrivaninhas empoeiradas
À nós mesmas.
E então também
Pertencemos a elas.

E passamos a não caminhar para longe
Porque estamos devotados, presos, paralisados demais.
À toda gente
Que possui bonecas de porcelana:
Ter medo delas é tão importante quanto ter medo de avião.

Parábola da lua

No livro de parábolas budistas
A monja escreveu:
Muitas vezes não olhamos para a lua
Porque ela está sempre lá.
Então passei a olhar mais para cima
Porque é certo que em algum momento
Eu não estarei mais aqui.

Existência mental

Exceto quando percorro a lateral direita
Ou quando nasce a poesia
Tenho sido monótona.
Faz tempo que não olho para os Três Reis.
Faz tempo que não me deito na rede
Que não me arrisco no ziguezague eterno do mar
Que não conto piadas...
Sinceramente, eu não me recomendo.


De outro lado
A personagem que dispara pela grama
A que cala e compõe eternidades
A que possui olhos de mata cósmica
(Olhos que realmente matam)
Essa, sim, tem um quê de Amaia Salamanca.
Recomendo-a!
Com o lamento de que ela existe apenas em mim.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Epílogo: a certeza

“Se podes mensurá-lo, o amor é pouco”.
Era o que dizia
O quadro preto de madeira.
Não sei quem escreveu
Importa que o recado foi dado.
E, com efeito, a certeza de algo
É a segurança do fim da vida.
Por isso tenho morrido, quase todos os dias,
Vagarosamente,
Quando falo
Sobre o clima ou sobre as paixões.
Mas não quando falo sobre mim.

Desvairar

Caduquei subitamente
De um ano pra cá
Definhei muitos conceitos
Esmoreci muitos conselhos

Pois que é encantador segui-los
Quando é você quem os dá.
O incrível é que tem bastado
Um dia para que eu envelheça

Dez anos ou um pouco mais.
Tenho mesmo envelhecido demais
Apelado demais
Me tornei muito antipática.

Pois quero ficar só.
Tenho cumprido quase todos os meus desejos.
Envelhecer faz bem
E tem gosto de morango quase maduro.

sábado, 27 de outubro de 2018

Casebre livre

Assentado no covil da serra
Em amarelo desbotado
Cava buraco na grama verde
Refugia-se do humano
No plano de esconder-se do mundo

As frutas tombadas ao lado
Chama atenção por munir
Mosquitos e micro-organismos
Que moram no vazio

O profundo íntimo do corpo da dama
Vestindo vestido verde escuro molhado
Pelo suor de cada golpe na terra
É a comprovação da beleza da criação
Longe de tudo que é civilizado.

O enterro das raízes termina
Aproximo-me da casa
A comunicação é feita de aplausos
Oito são suficientes...

A porta desdobrando-se
Aponta a mulher com cabelos presos
Agora, vestindo vestido azul escuro seco
Avental e labuta.
Esmolo um sorriso e um copo d'água.

A forma como ela me olha
Indica que a nossa história
Acaba de começar
Pelas infindáveis sombras das goiabeiras.

Trincheira

Cumpri meu papel
Desenrolei nós
Existi para dar o braço
Doei-me de corpo inteiro
De alma lavada
De cara suja demais
Calhou das palavras que salvam
Arruinarem.
Dizem que desgraça pouca é bobagem,
Não sei se concordo.
Mas eventualmente acontece.
Sobrevivo dia a dia
Em cada fogo cruzado...
Sair de casa tem carecido
De roupas de frio e capacete blindados.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Desflorir

Minha mãe precisou
Que eu a levasse para apanhar uma flor
Conduzi o carro
Esperei que ela buscasse a flor
A chuva discreta tornou-se grave
No retorno à casa esbarrei com o carro nas pedras
Suspensas no jardim de flor ao lado do cinema
O branco tornou-se tatuado de cinza
Minha mãe tornou-se amuada
A flor do vaso no carro conservou-se azul
Em casa, bebi muita água com açúcar
Ocorre que não serviu para muita coisa
Eu já estava murcha demais.

Amor

O amor
Em todos os lugares
É amor
Em qualquer idioma
Em galês
Em persa
Em espanhol
O amor é muy rico
Também em português
O amor é
Em qualquer lugar
Cheiro de chuva
Brisa de mar
Gosto de zapote
Abraço de saudade
Ver a Rita cantar
Lua cheia e fogueira
Você chegando para ficar
O amor é rico
Em qualquer lugar
E não possui conta
Não possui nada.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Retrato do mundo

Uma festa semântica exibida ao mundo
Não é acerca de comemorações semânticas
Expostas ao mundo,
Mais correto seria dizer "solenidades semânticas",
As palavras que guiam os olhos
A procura de salvação
De conhecimento
De capricho
De força
São relativas ao mundo
Sem festa.
Festa se dá na alegria
E em muitas alegrias não há folga
Nem recinto para a poesia.
A poesia é um sentir tão...
Extraordinário.
Quando não se ama
O amor vira clichê.
Entretanto, para os apaixonados,
O amor é a única opção.
Sinto que a tristeza faz a mesma coisa.
Se estou triste
Banho de banheira
Três tragos de cachaça
Música de meditação no jardim budista
Quatro quilômetros correndo no mesmo lugar
A serra com vista para o futuro
Nada adianta...
A poesia é a única opção.
Hoje tem sido assim
Mas amanhã já é sexta-feira.
Hoje, desconfio que não há
Poesia bastante na alegria.
Mas há, sim, muita poesia na redundância
No eco do vazio
Na partida que despedaça a alma.
Sim, há poesia de sobra no desconsolo,
No olhar que precede o choro.
No riso há muito barulho e entusiamo
Portanto, retira-se o lugar do silêncio
Retira-se a chance da inspiração.
Hoje, acredito que a poesia é triste.
O mundo é triste.
A poesia é retrato do mundo.
Mas amanhã é sexta-feira...

Acesso restrito

Rasga-me
Mas sem brecha para pedaço
Rasga-me inteira
Como rasga o seu riso a minha
Escuta
Rasga-me
Como rasga o vidro obsoleto
O fogo lançado em fogueira
Para rasgar o frio que
Rasga-me
A pele
Rasga-me pela roupa
A começar pela blusa
Contrariando a recusa
Não dita, pois é quista
E rasga-me
À semelhança da olheira
Rasgando o rosto fatigado
Às três da manhã
Rasga-me
Sem dó,
Sem ar,
Você
Feito sol
Rasga-me
Até que eu esteja aberta
Para fechar-me inteira.

Debaixo dos olhos matinais, lilás

A inveja é feia
Eu sei
Ensinaram na semana passada
Na reunião sobre budismo
Na hipótese de que a ideia não venha pronta à cabeça
Antes mesmo de nascermos em sociedade inimiga.

Seu amigo é seu concorrente
Seu pai, seu irmão.
É importante frisar…
A competência joga-lhe em competição.
Cairia bem, como jargão do mundo:
“Conflito, disputa, luta!”.

Um ganha e perde sem fim...
A vitória é triunfo de um em suprimento do outro.
Mas saber e sentir são coisas bem diferentes.
A questão é que alguma coisa tem me pegado o peito
Mais o direito que o esquerdo
E o que isso significa, eu não sei...

O lado esquerdo do peito
É reservado para o amor, para os amigos.
Assim falou a canção da América.
Logo, no lado direito guarda-se o que é cruel...
A ganância, a cobiça, a inveja, a gastrite.
Numa consternação de agulhadas finas de injeção.

Quase todos os dias,
Desperto às cinco da manhã
Com o peso do mundo no rosto marcado
Fazendo roxos bem embaixo dos meus olhos,
Sendo que o lilás combina tão melhor
Com hortênsias e flores-de-lis.

Eu olho para o relógio correndo sem parar
A trezentos por hora
Numa Ferrari nova
E a inveja do tempo,
Quando anda-se de carrinho de rolimã,
Bate em mim.

Todo o mundo que dorme em sono profundo, às cinco da manhã,
Tem o tempo andando em carrinho de rolimã...
E tem o rosto menos cansado às dez
E tem o sonho continuado,
Todos os sonhos,
Até os que terminaram antes da hora.

São continuados para serem contados no almoço,
Para puxar assunto com namorado
Para despertar para a realidade
Para impelir a vontade de não acordar.
É, a inveja do repouso alheio é feia, corrói e faz mal,
Mas é difícil não senti-la estando acordada.

Ser luz quando a gente se conduz