A solidão sem vontade
Rompe o íntimo
Interrompe a discórdia
É exílio, dia após dia,
Esmurra até machucar
Como quem esmurra muro
Entristece-se sendo cerca
Em vez de interligar.
Em alto grau, perde o limite
A despeito de sermos indivíduos
Individuais
Sozinhos
Aos dezenove
Ou aos oitenta e nove
A solidão, quando não é alternativa,
É obrigação de quem não escolheu estar só.
E, se se é infeliz por estar sozinho,
Então o isolamento não é opção.
É lamento de quem é condenado à solidão.
Solidão que realmente incomoda
E só é sentida
Quando não faz sentido
E para muitos jovens
Para muitos antigos
Não faz.
Entrelinhas perdidas possuem lugar quando partilhadas. Textos e poesias de autoria de Lívia Gallo. Instagram: @versariarse, @lviag
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
terça-feira, 21 de agosto de 2018
Fora da nove
Quando eu era mais jovem
Conduzia com o pé o jogo
Enfiada na camisa nove
Com virtuosidade
A bola vinha em minha direção
E eu sabia o que fazer com ela
Queria ser jogadora de futebol.
Mas cortaram as minhas asas.
Então me atirei feito anzol
Na pescaria enlouquecida de carreira
Incumbências, profissão, ofício
Imposições do mundo:
Te fisga e é duro voltar pra abundância
Flutuar na profusão.
Coisa chata, difícil, difícil de aturar
Conveniências da vida.
E não adiantou nada.
Tudo que é vivo cresce.
Caí, discrepantemente, na escrita.
Agora, um aviso,
Não adianta cortar as minhas asas,
Eu posso voar com a alma,
Correr mil gramados,
Em pé ou sentada.
Pairo sobre qualquer lugar.
A doutrina sobre ser útil à instituição
É teoria que não me contempla,
Não me interessa a sua opinião
Porque, se é sua, não é minha.
E para me tirar a poesia
Só se me matar
E olhe lá…
Conduzia com o pé o jogo
Enfiada na camisa nove
Com virtuosidade
A bola vinha em minha direção
E eu sabia o que fazer com ela
Queria ser jogadora de futebol.
Mas cortaram as minhas asas.
Então me atirei feito anzol
Na pescaria enlouquecida de carreira
Incumbências, profissão, ofício
Imposições do mundo:
Te fisga e é duro voltar pra abundância
Flutuar na profusão.
Coisa chata, difícil, difícil de aturar
Conveniências da vida.
E não adiantou nada.
Tudo que é vivo cresce.
Caí, discrepantemente, na escrita.
Agora, um aviso,
Não adianta cortar as minhas asas,
Eu posso voar com a alma,
Correr mil gramados,
Em pé ou sentada.
Pairo sobre qualquer lugar.
A doutrina sobre ser útil à instituição
É teoria que não me contempla,
Não me interessa a sua opinião
Porque, se é sua, não é minha.
E para me tirar a poesia
Só se me matar
E olhe lá…
A valer a poesia
Uma vez me perguntaram
Menos chata
Menos fria.
Para quê a poesia?
Para tornar a vida menos feiaMenos chata
Menos fria.
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Cura tarô
Revelei aos céus
A respeito da minha enfermidade
Prostrada sobre o suporte de madeira da igreja
Anunciei que a coisa era séria
Algo que vinha com a idade
Uma moléstia causada pela descrença no amor
E que por mais inexplicável que fosse
Já não me perturbava tanto assim a dor
Então, hoje mesmo, chegou um amigo preocupado
Vindo das bandas de Niterói
Desses que quando se aproxima
A dor que doía, não mais dói
Ele pegou a minha mão
- Senta aqui. O que passa?
- Nada. É só a desatenção do amor.
- Vou jogar pra você as cartas do tarô...
A primeira que saiu foi um cachorro
“É você”, ele disse
Eu reparava a imagem minuciosamente
Ele explicou
Durante toda a vida eu havia me portado como um cão
Um guardião
À espera do amor
Presa num abrigo
Uivando por amparo, por aceitação
Uivando por amparo, por aceitação
E sempre que o carinho de alguém arrisca-se a chegar
Eu transfiguro-me em gata miúda, encabulada
Eu transfiguro-me em gata miúda, encabulada
Igual à minha felina Miúcha
Desconfiada das visitas
Inclusive de pessoas queridas
Inclusive de pessoas queridas
Fujo sem direção
Com medo
Eu corro
Eu corro
Sendo eu gata
Sendo eu cachorro
Apanhei a habilidade de esquivar-me do coro
Coro de gente, coro da vida, coro de pai
Então, eu corro
Do juízo, do critério, do embaraço
Do laço, do amor
Do laço, do amor
Meu amigo me disse
Que posso correr o quanto for
Mas não do encargo de guardiã
Nem de ser cachorro, nem das cartas do tarô:
Nem de ser cachorro, nem das cartas do tarô:
"O baralho não mente, tens encontro marcado com o amor”.
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Jogada em jarra
É engraçado
Como as coisas criam formas
Qualquer líquido jogado em jarra
Vira jarra
E qualquer rompimento do limite
Já era
Vira mesa, bagunça, chão
Vira tudo
Menos jarra
Se é copo na mão
É tipo garra
Se derrama
Vira roupa
Vira corpo, colchão
Como um risco acidental em objeto pontiagudo
Vira corte, arranhão.
É engraçado
Eu entendo porquê
É muito difícil se encaixar
Quando se é volátil, instável corrente d'água.
Mata-se a sede e, por vezes, é ela que te mata.
Outrora era a vida,
A coisa desejada
Agora, o nada.
Então, quando te dão oportunidade,
Você quer mesmo é sair da bolha
Voar como fazem as folhas
Vazar sem olhar para trás
Molhar para secar por escolha
Se der, amar
Amar sem dar
Derramar gotas e mais gotas
Se esgotar.
Todo rompimento, quebra, fratura
Pesa, dói, machuca
E a gente atura
Porque é necessário, de quando em quando,
Retirar-se, partir, mudar
Para crescer
Se espalhar
Ser matéria extensa
Espelhar a face
Deitar na terra
Para subir, evaporar.
Ou você corre ou te engolem
Com o tempo
Ou com a toalha.
Por fim, é eficaz a bagunça que liberta
Da constância da vida da jarra perfeita
Fria e dura
Para dar consciência à vida em jarra lotada de rachaduras.
Como as coisas criam formas
Qualquer líquido jogado em jarra
Vira jarra
E qualquer rompimento do limite
Já era
Vira mesa, bagunça, chão
Vira tudo
Menos jarra
Se é copo na mão
É tipo garra
Se derrama
Vira roupa
Vira corpo, colchão
Como um risco acidental em objeto pontiagudo
Vira corte, arranhão.
É engraçado
Eu entendo porquê
É muito difícil se encaixar
Quando se é volátil, instável corrente d'água.
Mata-se a sede e, por vezes, é ela que te mata.
Outrora era a vida,
A coisa desejada
Agora, o nada.
Então, quando te dão oportunidade,
Você quer mesmo é sair da bolha
Voar como fazem as folhas
Vazar sem olhar para trás
Molhar para secar por escolha
Se der, amar
Amar sem dar
Derramar gotas e mais gotas
Se esgotar.
Todo rompimento, quebra, fratura
Pesa, dói, machuca
E a gente atura
Porque é necessário, de quando em quando,
Retirar-se, partir, mudar
Para crescer
Se espalhar
Ser matéria extensa
Espelhar a face
Deitar na terra
Para subir, evaporar.
Ou você corre ou te engolem
Com o tempo
Ou com a toalha.
Por fim, é eficaz a bagunça que liberta
Da constância da vida da jarra perfeita
Fria e dura
Para dar consciência à vida em jarra lotada de rachaduras.
terça-feira, 14 de agosto de 2018
Trégua
Meditar tem me salvado
Apesar de andar um tanto desacreditada
Com as vistas cerradas
Na tentativa de enxergar o óbvio
Ocupa-me, às vezes, o alívio.
Toda manhã tenho me sentado de pernas cruzadas
Em cima do meu travesseiro e de um urso em forma de almofada
De olhos fechados, eu vejo muito.
Hoje, vi o Japão,
Uns gatos soberanos em cima de um muro,
As Cataratas do Iguaçu,
Uns cajus laranjas caindo de tão maduros,
Senti o meu coração, bem lá no fundo.
Uma águia a procurar refúgio,
Também vi a angústia,
Muita gente na Nigéria levando murro,
Muita gente levando soco da miséria,
Gente no morro, morrendo pouco a pouco, sem futuro.
Hoje, eu vi o Japão, uns gatos em cima d’um muro,
Vi as bênçãos e as tragédias do mundo.
Pedi proteção ao universo
Roguei por trégua
Pedi o inverso da miséria
Menos selvageria para a civilização.
Eu bem sei que não é muito
Mas só posso me salvar do relento,
Do meu descontentamento,
Olhando por mim
Como olho e oro por tudo.
domingo, 12 de agosto de 2018
A última carta que te escrevi
Não atravessaria as avenidas agitadas de São Paulo
Não perguntaria por você sob as lanternas vermelhas da Liberdade
Não encontraria voz nem se espalhassem milhares de megafones pela cidade
Não te procuraria pelos atalhos obscuros e misteriosos da mocidade
Não te buscaria
Não te buscaria, mesmo
Nem por amor, nem por amizade
Não é pelo desaparecimento do que é recíproco
Não é pelo desaparecimento do que é recíproco
É por ter faltado muito
Por ter sobrado verdadeiramente pouco
O mínimo, do mínimo, do mínimo, do mínimo
De qualquer coisa que eu consiga chamar de humanismo.E mesmo assim te escrevo.
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
Algodão líquido
As nuvens se movimentando
Em silêncio
Proferem a mudança da terra
A dança das nuvens
A andança sem fim
Preferem a baderna à forma eterna
E gritam que o tempo vai e vem assim
Calado
Dizendo muito
E não precisa ser nenhum profeta
E nem ser poeta
Para desvendar
Que há esperança
Em meio à dança
De música muda.Lívia Gallo
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