domingo, 18 de agosto de 2024

Pulga atrás da orelha

Eu, que lido com cada segundo da minha vida,

Exatas vinte e quatro horas por dia, 

Duvido constantemente,

Me questiono se o caminho tomado está correto.

Hesito, nas retas, nas curvas, nas redes, nos precipícios,

Me questiono do princípio

Ao fim.

Fico a me indagar, a desconfiar, pra ser sincera,

Como pode ser 

Que as pessoas que não estão em minha alma

Saibam tão bem as respostas

Das questões da minha vida

E dos passos que nem dei, eu não sei:

É, deveras, de se ficar com o pé atrás,





Música

Um ruído
Diluído em minha cabeça 
Um ruído
Nunca termina, sempre começa,
Nas corriqueiras segundas às sextas,
Um ruído quando saio de férias,
Um ruído na mensagem não entregue,
Um ruído que não aparece,
Um ruído poderoso como uma prece,
Não importa o que aconteça,
Um ruído conversa,
Ecoa, para que se esclareça,
Para que se esclareça,
Para que se esclareça 
E diz muito, 
Mas informa mesmo
Apenas para quem escuta bem.
Um ruído
Ressoa
Em pedacinhos
De barulhos, sonidos
Para pessoa que sabe ouvir
Transformar 
Em orquestra de música clássica
Apenas
Depois de muito ensaio,
Depois de muito ensaio.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Bocas malditas

Com uma matemática básica
Aqui, vou tentar explicar
A importância que as pessoas devem ter
Em nossas vidas.

Lá, onde trabalho, são quarenta e duas pessoas juntas,
Dentro de uma sala que, numa primeira impressão, aparenta ser gigantesca, se vazia, 
Todavia, parece pequena, quando cheia.
Destas quarenta e duas pessoas, cinco se juntam, todos os dias,
Para reclamar da vida, para falar mal de terceiros,
Para menosprezar pessoas,
Para zombar em sua essência,
Para infernizar histórias.
Falam baixo, cochicham, diferentemente dos outros,
Porque o que dizem não pode ser dito,
É o errado que precisa ser escondido,
Esse grupo de cinco.
Lá, também onde trabalho, vale ressaltar,
Existe eu, que significa o total de um, voltando à matemática. 
Agora, para resolver o problema de vez:
Das quarenta e duas pessoas, cinco me tiram a paz, me deixam enojada e apagam, quase que por completo, a existência dos outros, que dá um total de trinta e sete, contando comigo.
Porém, o meu número "um" significa o todo de mim, o tudo que sou,
O meu eu infinito, ímpar.
Logo, para terminar:
Cinco pessoas tentam eliminar trinta e sete,
Mas o "um", que é o que sou, meu eu inteiro, Completo, autêntico e verdadeiro,
Cinco precisariam de um batalhão
De cinquenta milhões de bocas malditas
Para exterminar,
E olhe lá.






quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Para mim, não há problema alguém ser ateu.

Não há problema algum alguém ser ateu.

Para mim, as pessoas devem ter total direito de escolher valores que julgam primordiais, para chamarem de seus.

Para mim, o problema, o grande problema está em agirem, sem valor algum ou opostamente aos ensinamentos de Deus.



terça-feira, 13 de agosto de 2024

O menino e o patinete

Ladeira abaixo,

O menino e o patinete,

Numa velocidade demasiadamente prudente

Para uma criança de seis ou sete.


Ladeira abaixo,

O menino e o patinete,

Numa segurança ingênua

De quem há pouco saiu das fraldas.


Ladeira abaixo,

O menino,

Manso, mesmo quando topou com um monte de terra

E então, num súbito susto para os joelhos,

A queda.


A feição que antes era de tranquilidade

Passou a ser tristeza e chateação.


O menino engoliu o choro.

Não gritou,

Não fez sequer uma reclamação.

Coisa de gente de clima frio,

Um pouco insensível.


Ali, do jeito que caiu, ficou, meio curvado, meio sentando, observando o machucado.

A mãe veio correndo, também não disse muitas coisas,

Deu a mão ao menino, ajudou-o a se levantar, pegou o patinete,

Vida que segue.


O menino sem patinete,

Subindo a rampa cabisbaixo,

Aprendeu, em rampa onde tem terra

Patinete não anda.

Aprendeu,

A culpa não é do patinete,

Nem tampouco da terra

É de como se usa o patinete e a terra.


O menino, daqui pra frente, vai se lembrar do acontecido que durou menos de um minuto

Pelo resto da vida de criança e de adulto,

Para poder ter, por fim, outros tombos para levar.





domingo, 11 de agosto de 2024

Vista para o mar

Sentar na areia

Ver que a vida não é feita

Somente

De correria

E de carreira.


Sentar na areia

Ver que o mar

Basta.


Sentar na areia,

Ver que a vida é feita

Soberanamente

De mergulhos

E de ar.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

O pequeno pedaço de papel,

Em cima do armário da cozinha,

Em letra miúda, um pouco delicada,

Dizia assim:


É preciso entender o real significado das palavras.

O que parece óbvio, muitas vezes não é.

Há uma enorme diferença entre parar e pausar.

Parar significa acabar, terminar, concluir, findar.

Enquanto que pausar significa desacelerar, dar um tempo, relaxar.


Um pássaro, quando alça voo e resolve pausar, pousa em terra firme, mas não é o fim da viagem, é só um momento para descanso: é só um pouso dos muitos que ainda vai dar até o destino final.

Mas se o pássaro decide, por ventura, parar de ir em frente, então acabou outros pousos, outras pausas, porque já não há voo algum que possa dar, mesmo que não tenha chegado onde queria.

A nota ainda dizia assim:

O que parece óbvio muitas vezes não é: 

Pausa

E parada

Não são as mesmas coisas:

Favor não confundir o que é preciso pausa com o que é preciso parar e vice e versa.




terça-feira, 6 de agosto de 2024

Viver (de fato) a vida

As folhas das árvores exaltadas lá fora,

Me lembram que faz tempo

Que não vou à praça para reparar as pessoas,

os pássaros, as folhas,

Para ser mais exata, há um ano e meio,

Quando meu terapeuta deu a sugestão:

Parar de reparar tanto ao redor para criar poesia

E ir, de fato, viver a vida!

Ir, de fato, viver a vida.

Levei ao pé da letra:

Adeus poesia.

Aqui, em defesa do meu terapeuta:

É preciso interpretar o que nos é dito

Para que não coloquemos-nos em apuros.

Digo isto porque 

Meu terapeuta, quando sugeriu que eu parasse com a poesia para ir viver a vida,

Quis dizer que é preciso conhecer melhor e verdadeiramente 

As pessoas, os pássaros, as folhas,

Para poder escrever, de fato, sobre as pessoas,

Sobre os pássaros e sobre as folhas.






quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Primeiro: comprar uma bicicleta. Depois: escolher o que fazer com ela

Há quase dois anos

Comprei uma bicicleta,

Mas cheia de dúvidas

Se deveria mesmo ter comprado,

Porque foi cara,

Porque seria para laser, para passeio

E, dois anos atrás, eu não me permitia

Me divertir tanto assim.


Mas, mesmo cheia de culpa,

Eu comprei a bicicleta.


Depois de dois meses,

A bicicleta que era para passeio

Passou a ser para ir ao trabalho

E me poupou o gasto com ônibus, todos os dias,

Então, ao longo do tempo,

O que antes eu tinha achado custoso,

Me poupou muito dinheiro.


Há duas semanas, 

A bicicleta que era para passeio,

Que passou a ser o meio de transporte para o trabalho,

Furou o pneu e porque é elétrica

Nenhuma oficina quis consertar,

Então eu mesma, num súbito desespero, tive que aprender a trocar as rodas pretas da minha bicicleta branca.

Com esforço e suor,

Troquei as peças, todavia decidi colocar rodas azuis,

Minha cor favorita.

E troquei também o assento preto por um esverdeado com rosa,

As correntes escuras por uma verde esmeralda,

Os pedais por cor de piscina

E comprei adesivos de gatos para enfeitar o quadro de aço.


Há dois anos eu quase não me permiti comprar uma bicicleta,

Quiçá me permitiria trocar as cores dela,

Mas agora eu ando em cima de rodas com minhas cores favoritas

Que me lembram constantemente quem eu sou.




Ser luz quando a gente se conduz