Não sei ao certo qual é o limite entre o amor e a indiferença, no entanto, desconfio que é mera questão cinética transportar-se de um lado ao outro. Às vezes, penso que basta uma simples inclinada para a direita ou para a esquerda e estamos à beira de descer incessantemente o lado oposto, como se estivéssemos escorregando ladeira abaixo numa pista de snowboard. Sempre me impressionam os amigos que afirmam conseguir controlar o que sentem por outras pessoas, no sentido romântico da coisa. Me admira, porque capacidade tamanha estou longe de possuir. Nos últimos meses escutei de cerca de três ou quatro pessoas que sou intensa demais. Refleti sobre o assunto e o que concluí foi que, provavelmente, o meu lado comedida de ser é engolido em grande parte das vezes pelo exagerado, portanto, não sobra nada senão o excesso.
Mas, afinal, que regras são essas? Como pode alguém amar sem amar verdadeiramente? Acho que está aí a resposta para a questão do limite entre o amor e a indiferença. O limite para se atravessar de um lado ao outro está simplesmente no ato de parar de amar. Quando o amor se extingue, anula-se o sentimento e não há outra saída a não ser não amar - tudo isso pode soar um pouco redundante.
Constantemente me pego pensando que se é tão fácil controlar o que sentimos pelos outros, como fazem alguns, então ultrapassar a linha entre amor e descaso é mera questão de escolha. Dessa forma, basta um pequeno passo para sairmos do interesse para o desinteresse. Ou seja, se escolho me apaixonar por alguém ou se, na contramão, simplesmente prefiro desprezá-lo, é meramente uma questão de opinião e vontade; ou seria de humor? Fato é que tudo isso para mim é teoria muito precipitada de amantes - ou não - desatinados. Se controlar o amor é tão possível assim, qual o motivo de as pessoas sofrerem tanto por ele, quando não correspondido? Quer dizer, por que as pessoas simplesmente não optam por parar de amar e, consequentemente, parar de sofrer por algo que não recebem em troca? Ou então, se é tão factível controlar o amor, por que não escolhemos amar somente a quem nos ama, já que a reciprocidade é totalmente generosa e benigna? E, por fim, por que, então, as pessoas simplesmente escolhem não amar e, portanto, não se envolverem emocionalmente com outrem para não sofrer pelo fim de um romance que, muitas vezes, é inevitável?
Me parece inevitável que grande parte das pessoas transpasse o limite entre o amor e a indiferença. Seja da direita para a esquerda ou vice-e-versa, a mudança sempre está suscetível de ocorrer.
A conclusão que chego é que mais importante do que transpassar qualquer linha, o verdadeiro amor, que nasce de um olhar, de um toque, de um cheiro, de um beijo, de uma conversa, de um jeito único de falar, de mexer as mãos e de corar é o amor que chega sem pedir licença e fica. Esse não é suscetível de controlar. Esse amor chega como que de forma natural e incontrolável, não dá para manipular, ainda que se tente. É o amor que acontece como a descida na pista de snowboard. É a queda acelerada e constante do lado do descaso para o verbo importar. Ao contrário do que pensam os dosadores de amor, que parecem viver com um controle remoto na mão até para regular a temperatura que cai, amar não se escolhe, não se controla. Simplesmente acontece, pergunte aos que amam...
Querermos controlar o amor é coisa proveniente da sociedade ditada em que vivemos, capitalista demais, sensível de menos. Essa sociedade que ensina que não podemos perder, que o outro é adversário. E, para não perdemos para os nossos inimigos de batalhas rotineiras, temos que nos planejar e estudar os adversários sempre. Quero dizer, me parece que em prol do auto sucesso, do medo de perder, de alguma forma, as pessoas não se permitem amar e vivem se regulando, se controlando o tempo todo. Ao meu ver, se nos perdemos, de alguma forma, quando nos entregamos inteiramente ao amor, não se entregar para obter vitória é uma forma muito triste de perder.
Há poucas semanas estava conversando com uma amiga e, no sentido de me ajudar com algumas metas, com o planejamento da minha rotina, ela me disse que eu precisava ser mais ponderada em algumas questões da vida. “A vida tem suas obrigações e precisamos cumpri-las. Se a gente não faz isso, vivemos só em prol de desejos, sem civilidade, sem planos, como vivem os animais na selva”, ela disse. Eu concordei, me pareceu um pensamento coerente com a minha realidade. No entanto, levei alguns dias, boas horas de reflexão e algumas palestras de psicanálise para chegar à conclusão de que o que nos diferencia dos outros animais é exatamente a nossa capacidade de se perder profundamente, de sentirmos angústia, de nos apaixonarmos e de amarmos perdidamente. Percebi que o que nos difere dos outros animais é a nossa racionalidade e, apesar dela, a tangente inclinação que possuímos para a perda do controle, seja emocional, psicológico, racional, sentimental; estamos, o tempo todo, à beira do abismo, prontos para nos perder. Aqueles que afirmam que não, tenho quase certeza, são a grande parcela dos que andam com o controle remoto na mão, controlando até a temperatura que sobe.
Não temos uma vida tão simples como a dos animais que fazem coisas básicas por pura necessidade e instinto, como caçar, por exemplo, quando estão com fome. Nós, seres humanos, fazemos tudo por desejo, por tesão, às vezes – em muitas delas - por loucura, por pura perda de controle. Somos mais complicados que os animais e, com certeza, mais perigosos também. As notícias mostram, todos os dias, como somos destrutivos para nós mesmos e para outrem. Somos, por fim, qualquer coisa que seja o contrário do que é civilizado. Nossa ideia de ser humano tem se perdido com a luta desenfreada por dinheiro, status e sucesso e, junto com ela, estamos perdendo aos poucos a capacidade de amar. Não me surpreende as pessoas estarem sempre passando de um lado a outro, do lado do amor para o lado do desprezo e vice-e-versa, com uma facilidade incrivelmente assustadora. Neste mundo onde não se sabe mais definir muito bem o que são as coisas, o que é novo hoje amanhã já está velho, são tantas novidades e informações demasiadas, sem contar a perda de privacidade devido às novas tecnologias... Não sei onde se escondeu o amor em meio ao caos. Mas sei onde está o meu, eu o sinto. Todavia, rogo dizer que desde que entrei no jogo, saí perdendo (com muito orgulho, aliás).
Peço que não me interprete mal. Não quero dizer que saímos do lado do amor para o do desprezo e do desprezo para o do amor como se fosse alguma espécie de brincadeira. Exceto pelo fato de que, de fato, brincamos muito. Vivemos em um mundo livre, embora cheio de amarras. O amor também nos prega peças ao ter como sinônimo o afeto e como resultado a distância proclamada de forma parcial. O amor que nos faz arder em chamas, que nos pega sem que consigamos nos dominar, de maneira espontânea ou predominante de uma construção morosa, é jogo em que não há pontos para caracterizar vitoriosos ou derrotados. O amor é um mero sentir por si só, ainda que procure por um par. Não há como explicá-lo com palavras, senão senti-lo verdadeiramente. O amor, em sua forma mais elementar e simplória, senta-se no sofá com você, assiste a um filme de duas horas sem pestanejar. O amor, cheio de expectativa, te convida para uma festa para te galantear, mesmo sabendo que existe outrem. O amor coa o café pela manhã, faz o suco de limão com mel pela noite, te procura quando bate a tristeza, porque sabe que com você o riso sai fácil. O amor é simplesmente qualquer ato de amar, mas quando acaba, só acaba.
Lívia Gallo