sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Resguardo

A espera me preparou
Para o resguardo do tempo
Que nada mais é senão aguardar
Guardar a vida num pote
Fechar
Esperar, esperar...
Esperar a morte.
A espera demora
Outrora, apressa
E faz do que é
O que era.
O aguardo de trezentas e sessenta e cinco voltas da terra
O aguardo da primavera
O resguardo da mulher que gera
A espera do fim da cólera
E, à espera dela, de quando em quando, pira-se.
A espera
É coisa severa
E não releva, não releva...
É quimera
Esperar que a espera perfaça-se,
Porque na vida, uma coisa ou outra, a gente até supera.
Mas a gente não supera
A gente não supera
A gente não supera
A espera.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O gosto da vida

“Realmente...”
Veio a entonação lastimosa
A concordância ulterior
Decorrente da afirmativa
De que a vida não anda fácil
E nada flexível
“A vida é dura demais, criatura”, constatou
Dona Jandira com sua voz trêmula,
Como um clínico exausto que desvenda doença, depois de intenso estudo,
E entrega o diagnóstico com tamanha morosidade
Que já não resta mais prazo para a cura.
Dona Jandira abanou a cabeça em crítica delicada
Jogou a vista quase completamente cega num ponto remoto
E demorou-se nas reticências...
É que, por vezes, resta sentir a vida,
Silenciar-se, provar da vida,
Assenti-la
E desaprová-la.

Aspargos degeneram-se

Não faz muito tempo e era antes de ontem E a realidade não era assim As coisas não eram bem assim Em pouco menos de setenta e duas horas Os aspargos degeneram-se E quando entoa o badalo limite Já não servem para nada Senão para serem lançados ao lixo Como seriam um ou dois indivíduos Seres antes benéficos, positivos Que reduziram-se a resíduos Não sólidos, quebradiços, ocos Indevidos Vazios. É cômico, E, às vezes, matuto O problema é comigo? E se for, não há de quê. Se ciclano já estragou, Passou do ponto Já transtorna, cheira mal, E causa ânsia de vômito, Não é culpa minha sentir enjoo.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Um todo azul

Não são antagônicos
O céu e o mar
E é mágico que se encontram
Em algum ponto eles se esbarram
No fundo da barra
No futuro lugar, onde chegar significa
Desvanecer o ponto em que se topam.
E nos confins do horizonte, lá longe,
Se confundem
Se unem, são unos.
Um, azul claro, o outro, azul escuro.
Embora um seja alta atmosfera
E, o outro, hidrosfera profunda
Se juntam
Em determinada zona
Para terminarem em si mesmos
Para serem a mesma coisa
E continuarem a começar
Eternamente
Para serem passado e presente
Um todo azul,
Infinito,
De norte a sul.

Gritos que ouço

Serão gritos de fome Esses, há poucos passos, Adentrando pela janela do meu quarto? Serão gritos de desespero Gritos de quem procura parceiro Afeto? Esses meros gritos sinceros Míseros gritos De miséria severa. “Cuidado”, emitem os olhos arregalados Olhos assustados do meu gato. Serão gritos loucos Esses gritos gastos Esses gritos roucos? Há motivo de serem Gritos de quem não tem nome. Gritos ásperos, os gritos que ouço De falta de amor De atenção De cuidado De proteção Clamor De quem tem fome.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Em tudo, um nada

Não serei eu
Não serei a vida sofrida
Nem alma penada
Nem mão que belisca
Não serei corpo contente
Nem boca sem mostrar os dentes


Não serei o desistir
Nem tampouco o desejar
Não serei a poeira
Nem a pancada d’água que encharca
Não serei a seca árida
Nem a abundância exaustiva


Não serei eira
Nem o que era
Nem sereia do mar
Não serei concha de calcário
Nem casca de ovo frágil
Nem tesouro duro, arcaico feito fóssil


Não serei rompimento
Nem a miséria do caro abono
Nem a quebra que antecede o choro
Nem carinho ante o abandono
Não posso ser uma
Não posso ser nada, sendo eu, infinitamente, infinita.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Teso e leve, o vento fresco

Não oponho-me
Ao chão rígido
Caminho
Que leva-me a pisar
Em areia fina
A presenciar, sem muita luta,
Com quase nenhum luto,
O enterro manso de pés
O sujar desencardido de mãos.
É importante frisar,
O asfalto, duro e teso,
Antes mesmo
Da orla de vento fresco,
Ameniza um ou dois pesos,
Apenas porque te leva
À terra fina,
Sepultura do caos, à beira mar,
Caixão de cabeça pequena.
A indagação que me naufraga:
Terá sempre que existir um peso,
Antes do caminhar com a brisa,
Para que se leve do fardo
Apenas o valor do que for leve?

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Aos parasitas do mal

A essa gente que me julga Que se alimenta do meu sangue Como se fosse um parasita Portando-se como pulga E que diz em bom tom Que me considera feia Por eu amar outra mulher Como se sua ideia doentia Causasse-me doença E arrancasse-me o ar Como faz a apnéia Enuncio que não me importo Faço mesmo pouco caso E que, um dia, eu ainda me caso Com orgulho e com amor Com quem eu considerar que seja a minha flor. Dou-lhe em troca o meu desdém E seus insultos se esvaem. Nasci para ser o seu oposto, Por isso danço na ala do bem. Todavia, minto, Tenho levado em consideração Os discursos cuspidos por bactérias do mal A saliva suja de quem me engole de forma brutal Dia após dia. Consola-me saber Que, mais cedo ou mais tarde, Quem me traz a moléstia Mastigando-me com pressa Acaba por se engasgar E sufoca-se Como quem come de uma só vez sem respirar No fim das contas O jogo vira, você é quem perde o ar E sucumbe sem saber O efetivo significado de amar.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Omissão

Há três meses
Um frio impiedoso tomou a praça Frei Orlando
Apesar do azul voraz que apontava o céu
A amplidão tomava tudo embaixo dela
Convertendo a totalidade em conjunto ocaso
Eu mesma, sentada no banco de ferro frio,
Esperando por um milagre do acaso,
Tornei-me poente.
Um arquétipo do início do desaparecimento.
As pupilas dilatadas pela mudança da luminosidade
Colocaram meus olhos em estado de alerta
Estando eu quase completamente oculta
Passei a enxergar melhor ao redor
Percebia com cuidado cada cabelo preto a passar
Reparava com empenho o liso de cada mecha escura
Esperando pela presença
Totalmente omissa
Daquela que jurou fidelidade a Deus
E que não poderia estar em outro lugar, senão enfiada na missa,
Cumprindo seu propósito, como eu nunca fizera.
Ela: porque temia o castigo pela falta à igreja
Eu: porque havia firmado compromisso comigo mesma.
Não sentia culpa por estar oculta,
De espreita, do lado de fora do culto,
No banco frio de ferro duro.
Eu que não havia marcado lugar nem hora
Pedia ao universo ajuda.
Não poderia simplesmente levantar-me e ir embora
Não sem vê-la
Passando pelo beco ou saindo da igreja.
Não sem dizer que faria esforço para esquecê-la,
Que eu clamava por perdão, por ter sido ridícula,
Um pouco estúpida, um tanto tola e chula,
Por ter dado tantos passos sem direção,
Por ter cravado entre nós a traição.
Todavia, eu carecia de perdão.
“Por favor, Altíssimo, me dá a mão…”
Diante da igreja de São Francisco
Parecia que o mundo todo havia passado por lá,
Enquanto caía o dia,
Toda gente veio trotando,
Ante as palmeiras, pelas pedras ancestrais da praça Frei Orlando
Passaram uns meninos alvoroçados saindo da escola
Uma criança parou para jogar bola,
Uma senhora sentou-se ao meu lado, remoendo a doença,
Uma pomba atravessou a rua em perigo de vida,
Cruzou a esquina um frei com passos afobados,
Bufando de calor, rosa como um flamingo,
Vestindo um casaco desbotado com o escudo do Flamengo
E eu sentindo frio...
Diante do banco de ferro da praça Frei Orlando
Creio que o mundo todo passou
Menos quem eu estava esperando.
Não veio de lugar nenhum, nem mesmo da igreja,
Então, sem despedida, eu que já sou um tanto omissa,
Desapareci.
Agora, depois de três meses sem vê-la,
Não aspiro por perdão
Nem imagino onde ela esteja.
Sem cumprir a minha sentença
Há tempo, decidi abortar a minha missão
E ofertei, a mim mesma, a minha remissão.

Ser luz quando a gente se conduz