Quando me disseram que aquela situação era horrível, olhei fixamente para o céu - o único que estava acessível no momento - de concreto e branco, sem azul e sem nuvens. Eu não via tudo aquilo como algo horrível. Simplesmente não conseguia entender dessa forma ríspida, assustadora. O que tornava toda a situação horrível era o modo como estavam tratando-a. Quando uma situação é difícil, as pessoas, em vez de transformá-la em mais amena, em alguma coisa um pouco mais branda e superá-la, têm a grande mania de piorar o que já é difícil, de agravar o que já é penoso e apontar um culpado. Parece que dessa maneira tudo fica mais fácil e resolúvel. Ou seja, o importante é culminar um responsável, acusá-lo e liquidá-lo. Nesse caso, eu era réu e estava sendo julgada, mesmo não estando em um tribunal. Estava na sala de estar da minha casa. Não sentia que havia errado para ser tão grosseiramente condenada. Logo, eu apenas queria fugir dali, daquela gritaria, do maltrato que cortava sem sequer encostar. Mas não podia correr sem ser vista, muitos dedos apontavam para mim, afinal. Olhos esbugalhados me encaravam, vozes gritantes, gestos gélidos. Foi então que em meio a tanto terror me joguei inteira para o meu interior. Por um instante milagroso, consegui fugir sem sair do lugar. Algo como uma meditação que impus a mim mesma, era a única forma de me esquivar, de demorar ali - já que eu tinha que ficar - sem entrar no jogo da moléstia, da doença, do mal-estar. Não sei explicar como essa meditação obrigatória deu-se efetivamente de forma natural, apesar de forçada, ainda que imposta. Mas tenho total convicção de que as verdadeiras obrigações da minha vida se não tiverem que acontecer de forma minimamente espontânea ou natural, provavelmente, não acontecerão, talvez, por excesso de respeito a mim mesma; e o que os outros pensam de mim, já dizia Lama Michel, é problema exclusivamente deles. Então, adentrei em mim mesma, de olhos abertos, ouvidos destampados, escutei os berros, assisti o indicar de gestos dirigidos em minha direção do lado de fora. Por dentro, estava só, em silêncio e consegui ocultar o meu eu furioso - aliás, não o encontrei. Ao infiltrar em mim mesma, sem dar chance e sentido às situações externas, não me deparei com irritações inconscientes e, de alguma forma, prevaleceu a calmaria, e a tranquilidade interna gritou mais alto do que os sons espavoridos lá de fora. Não retribui nenhum grito, nenhum gesto perverso ou maldoso. O entrar em mim me deixou tão leve diante das circunstâncias que mesmo só, sem poder retirar-me dali, foi como se tivesse me transformado em algo parecido com o sol, com as estrelas: me senti iluminada, inocente e me tornei inofensiva. Naquela tarde, diante de uma situação que tinha tudo pra ser desagradável e irritante, percebi que quando a gente se conduz e cuida de si próprio há grandes chances de surgirem breves instantes, que podem se prolongar, em que conseguimos ser luz e iluminar a nossa própria vida e a de outras pessoas.
Lívia Gallo
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