terça-feira, 20 de setembro de 2022

Das enchentes fiz pingos d'água

Cá estou, sentada,
Assistindo as gotas de água caírem 
A cada quatro segundos
De dentro daquela torneira, a um passo de distância, que eu poderia muito bem enroscar um pouco mais,
Mas eu não me preocupo, 
Eu não me aflijo com essa bobeira.
Cá estou, sentada,
Assistindo você me procurar
De quatro em quatro dias
De dentro do seu coração frio, a uns dez quilômetros de distância, que eu poderia muito bem apertar um pouco mais,
Mas eu não me preocupo,
Eu não me aflijo com essa bobeira.
Cá estou, sentada,
A água pinga, você também goteja,
De bobeira em bobeira
Quanta água cai,
Quantas lágrimas derramadas,
Quanta vida que passa,
De bobeira em bobeira,
Quantas goteiras,
Quantas goteiras...
Você não vê,
E não é culpa sua,
Eu não mostro
E também eu também quase não vejo,
Quando digo que estou a procura da cura
Para o meu mal estar,
Para as lacunas que o amor faz em mim,
Para a minha loucura que eu tento ordenar E para os erros que tento corrigir,
Estou tão longe de me melhorar.
Quando você some por três dias,
Não sei muito bem porquê,
Pela sua doença, pelo seu cansaço, pela sua família, pelas tarefas do dia a dia,
Eu digo que está tudo bem e que espero que você esteja bem também,
Eu digo que você não precisa se preocupar em pedir desculpas
E invento uma indiferença que só existe na história de amor que criei e nunca vivi, 
Pois que quando você aparece eu não caibo em mim de tanto entusiasmo, exaltação, interesse e esmero
E eu queria que você não estivesse bem sem mim,
Porque eu fico arruinada sem sua presença,
Eu fico destruída sem sua companhia,
Fico mesmo perdida, arrematada com o seu abandono, desinteresse e descaso.
Dessa vez, queria te dizer, neste poema que nunca vou te mostrar,
Que a gente não tem um caso de amor,
Porque você simplesmente não participa.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Cascalhos mentais

Agora, depois de um ano de terapia,

Falando dos sonhos, dos problemas, das vergonhas, dos dilemas

Aquela pedra que pesava um caminhão,

Bem em cima da minha cabeça,

Diminuiu um pouco de tamanho e consequentemente de peso,

Já não a carrego por todos os lugares que vou.

Agora, fico me perguntando, como eu podia viver com todo aquele peso em mim? 

Mas antes eu me perguntava, como eu posso viver sem esse peso em mim?

Eu acreditava que a melhora da mente viria se eu me afastasse da pedra a ponto de não conseguir vê-la, a ponto de tentar esquecê-la,

Mas a pedra nunca sumiu, nunca foi a lugar algum e ela me incomodou tanto que, ao contrário, fui obrigada a me aproximar dela.

Olhá-la tão de perto a fez parecer maior do que era, mas então a aproximação me deu a chance de percebê-la de tal maneira que eu acredito que consegui quebrá-la em pedacinhos menores e movê-los para outro lugar.

Não sei quantas pedrinhas agora tenho, mas elas são menores e pode ser que algum dia elas se tornem grãos de areia que voam com a ventania.

O que eu espero mesmo é, um dia, poder ter apenas poeira em mim.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Ser uma ideia

Eu me perguntava,

Sem saber muito bem me achar,

Onde é que eu estava,

Onde eu havia me deixado?

Quando foi que eu havia me perdido de mim?

E, por acaso, se algum dia eu havia me encontrado,

Quem é que fui?


Não consigo ver nada,

Acredito que nunca fui muita coisa

E é por isso que escrevo poesia

Para poder ser alguma coisa,

Alguma ideia...

Acontece que, quem só é algo ideologicamente,

Até toca os outros,

Mas nunca pode ser tocado.

Histórias dos mares salgados que ninguém pode ver

Me lembro bem,

Quando eu era criança

A minha mãe me deu um tapa e disse "não chora",

Mas eu chorei, interiormente,

E, a partir daí, eu passei a vida engolindo o choro,

Passei a vida tentando não chorar,

Afinal, eu respeito a minha mãe,

Mesmo quando meu coração queria derramar mais água que uma usina hidrelétrica,

A voz da minha mãe me falava "não chora"

E em público, eu não chorava,

Mas, sozinha, meus olhos inundam a minha casa.

Eu respeito a minha mãe,

Mas eu não percebi, naquele dia, que quando ela me falou para não chorar,

Ela estava cansada de tudo, exausta do trabalho, de ter que cuidar de outras vidas,

Preocupada com o dia seguinte, tentando não surtar

E que, provavelmente, ela estava querendo chorar, mas não podia

E então ela me disse: não chora.

Eu respeito a minha mãe,

No dia do tapa, tarde da noite,

Quando ela quis inundar aquele vestiário com lágrimas, ela não pôde

E então ela provavelmente sentiu que o mundo era injusto e não a respeitava,

Provavelmente ela percebeu que nem ela mesma podia se respeitar e chorar, ali,

E então ela bradou: não chora. 

Eu não chorei, externamente,

Mas hoje vejo que, naquele dia, minha mãe e eu

Estávamos a chorar um mar tremendamente tormentoso

Bem no fundo de nós.


sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Rotina do sol

Duram alguns poucos minutos

O nascer e o pôr do sol,

Duas das coisas mais belas do mundo,

Duas das coisas mais simples do mundo,

Duas das coisas mais coloridas do mundo,

Duas das coisas mais generosas do mundo.

No resto do dia, eu não sei,

Tudo parece ficar meio automático,

Meio inevitável,

Meio mecânico, meio fatal.

Tem vezes que, ao meio dia, eu só quero que o dia chegue ao final. 

Duram poucos minutos o nascer e o pôr do sol

E no intervalo entre um e outro a gente vai indo,

A gente tenta pigmentar a vida,

Mas eu acredito que existe hora certa para cada coisa,

É quando a gente morre e renasce que a gente fica mais intenso mesmo,

A gente é essa impetuosa energia de momentos raros 

E a gente precisa de ir embora

Para voltar diferente,

A gente precisa se deixar ir:

Amanhã a gente terá outras cores.

Ser luz quando a gente se conduz