Percebe que quando eu não fui eu,
Quando fui algo
Para você e não para mim,
Eu me maltratei assim...
Mas mesmo
Quando eu não fui eu,
Eu estava me empenhando
Fervorosamente
Para ser alguém.
Entrelinhas perdidas possuem lugar quando partilhadas. Textos e poesias de autoria de Lívia Gallo. Instagram: @versariarse, @lviag
Percebe que quando eu não fui eu,
Quando fui algo
Para você e não para mim,
Eu me maltratei assim...
Mas mesmo
Quando eu não fui eu,
Eu estava me empenhando
Fervorosamente
Para ser alguém.
Muito medo
Estremece.
Meio medo
Ainda é medo.
Pouco medo
É menos,
Mas é medo.
E a gente tem que ir,
Assim mesmo.
Para sermos o que somos,
Aceitar que também somos feitos
De medo.
Besteira crer que estamos no controle
De uma vida que, desde muito cedo,
Guarda perigos e segredos
Que são revelados pouco a pouco,
Até o último suspiro do tardio amanhã.
Fazer o melhor
Não é garantia de nada.
Isso não significa que o melhor não deva ser feito.
Significa que, ainda que façamos o nosso melhor,
A vida não será perfeita.
O que é o melhor, afinal de contas?
Àqueles que me acolheram em sua casa,
Me deram comida e cama,
Me deram água e dinheiro,
Agradeço imensamente.
De tudo o que feito,
Dentro do meu peito,
Trago o vazio de ter tido tudo para manter o corpo físico vivo
E nada para manter viva a alma e o coração.
Ter todos os bens materiais oferecidos,
Menos aceitação por ser quem se é
É o mesmo que pagar para alguém ficar
Só pelo dinheiro, nunca pelo amor ou pelo apreço.
Hoje tenho pena desta menina que fui:
Adolescente desamparada de cuidados,
De acolhimento, de aprovação.
Não gostei de estar na pele desta menina. Como poderia? Queria poder abraçá-la e cuidar para que se o mundo fosse pesado demais para ela, ela poderia ter certeza de que, dentro da casa dela, o mundo seria leve e preenchido de qualquer coisa que não fosse a distinção de tratamento ou de discriminação, só por se ser quem se é, por amar quem se quer.
Aqui, uma poesia diferente, para uma menina adulta diferente daquela triste menina que sofreu por tantos anos por não ser o que deveria, aos olhos dos seus.
Para nascer algo novo, o antigo há que morrer. Para uma nova menina surgir, a antiga precisa se deixar ir e com ela todo o sofrimento de ter que se esconder por vinte e nove anos, para ser feliz. Adeus, menina antiga, aqui lhe dou este abraço.
Adeus pessoas que criaram uma adolescente triste e amargurada até a adulta de ontem. A de hoje, nasceu agora há pouco, para abraçar tudo que for novo. Venha, venha com alegria.
Não está mais em minhas mãos,
O amor,
Depois de dá-lo todo, como eu poderia dar,
Não está mais em minhas mãos,
A culpa,
Depois de doar-me toda, como eu poderia me doar,
É a dor o que fica, como poderia não ser a dor,
Depois de um destino afortunado,
Como equilíbrio mandado dos céus,
O final sempre há de ser trágico.
Indagava
Por onde andariam
Todos aqueles que deveriam estar comigo
No momento em que eu estava perdida.
A resposta: procurando por si mesmos pela vida.
Indagava, mais ainda,
Onde estaria eu mesma,
No momento em que eu estava perdida.
A resposta: procurando pelos outros pela vida,
Quando só eu poderia me encontrar
Para me levar
Aonde quer que seja...
Naquela tarde em que o sol adentrava pela janela,
O suor escorria pelos poros,
Mas eu não conseguia olhar o dia,
Sentir o dia,
Mesmo quando tudo dentro de mim ardia.
Eu, tão cheia de mágoa
E também estranhamente vazia,
Juntei todas as minhas coisas,
Saí triste porque eu queria ser feliz.
E então é isso que acontece:
A tristeza sempre me pega
Porque eu não aceito
Não ser feliz.
Por haver tantas versões de mim,
Não sei bem
Quem sou.
Perdida em alternativas,
Acredito que é este o motivo
Pelo qual o universo não me permite
Ser sua.
Quantas vezes terei de amar
Para entender que se ama sozinho?
E que, por sorte, se o amor é dado em troca,
Então alguém também me ama sozinho,
Enquanto decidimos ficar juntos.
O meu medo
É que me descubram
Poeta.
Pois sabe-se bem,
Depois da poesia até que surge o riso,
Mas antes, ah, mas antes...
Há muita saudade
E muita lamúria:
Não se sabe ao certo se é
Por tudo aquilo que se é
Ou se é
Por tudo o que não se pode ser.
Deixe que caia por terra
Esta ideia de que o nosso amor não vale,
Não presta...
Nossos corpos também caem por terra
E ainda assim
Criamos histórias lindas.
E então, diante desta inconstância da vida
Não haverá um só dia,
Nem sequer apenas um minuto
Em que as energias serão permantes, estáveis.
Apesar de eterna, a energia que compõem
O espaço,
Esta terra,
Jamais será a mesma,
Pois que numa fração de segundos
Eu e você,
As águas,
As plantas,
O céu,
Todo o mundo,
Mudou:
Numa fração de segundos.
Desconfio que é por isto,
Que inventaram o amor:
Alguma coisa tinha que assegurar
As relações mundanas.
Pensava que a vida
Nunca esteve a me amar,
Porque a cada dia findo
Era um dia a menos.
Mas então, ao embriagar-me de álcool,
De diversão e de alegria,
Também não estou me matando um pouco?
E suponho que tudo o que faço,
Faço porque me amo.
E então, ao amar você - e você a mim-,
Também não queremos tanto a vida
Que nos perdemos um pouco?
Ao querer estar ao seu lado,
Crio um abraço impossível de ser dado,
E só aumento a nossa distância.
Onde é que há um todo em que não exista dois lados,
Opostos, andando juntos,
Tal qual o espaço cheio de vazios?