domingo, 31 de outubro de 2021

A porta está aberta

Não é só o sistema,
Não são só os problemas,
Nem apenas as situações extremas,
Não é também só os dogmas
E nem só as condições ínfimas,
Às vezes, somos nós
Que nos colocamos algemas.
Às vezes, a prisão não é externa,
Às vezes o cativeiro está na alma.

Mas como prender
O que não tem tamanho,
O que não é objeto, mercadoria, matéria?
Como aprisionar sonhos, o desconhecido, as ideias?
Se a vida fosse apenas o que palpável, 
Onde estaria o amanhã?
Não fosse a vida alma,
Ânima,
Onde estariam os poemas?
Não fosse a vida essência impossível de pegar
Não estaríamos, de fato, sem saída?

sábado, 23 de outubro de 2021

Humanos únicos

O jeito que fazemos

Todas as coisas

É o jeito

Que nos ensinaram a fazer

Todas as coisas.

Às vezes, 

É preciso

Discernimento suficiente

Para ensinar ao mundo

O nosso jeito único

De fazer todas as coisas

E então gozar de ser quem somos,

Não do que quiseram que fossemos,

E então a gente não some no meio dos outros,

E então a gente vem pra somar.


domingo, 17 de outubro de 2021

Impugnação

É aí, neste ponto, que me pego pensando 

Que ainda vou errar tantas vezes,

E, dessas tantas vezes,

Em todas elas eu terei que me perdoar,

Mais tantas e tantas vezes,

A única saída é me perdoar. 

E é aí que eu me pego pensando

Que se erro comigo, se cobro tanto de mim,

Como não errar com as outras pessoas?

O grande ponto, no entanto, que faz toda a diferença

É que eu sou obrigada a me perdoar,

As outras pessoas não são.


sábado, 16 de outubro de 2021

Fronteiriça

De olhar em olhar, 

De boca em boca

A descobrir que as pessoas

São mesmo muito maldosas.

Não sei se isso tirou ou adicionou 

Um peso enorme nas minhas costas,

Pois eu bem sinto,

Em grande parte do tempo, que sou

Involuntariamente estranha.



Capital

Eu tenho consciência de que a gente fica,

Mesmo depois que a gente se vai

A gente fica

Na poesia, 

Na casa construída às custas,

Nas músicas,

Na água,

No ar,

Nos resíduos,

Na terra.


E eu tenho medo

De que de tanto a gente querer ficar,

De tanto deixar rastros,

A gente leve tudo conosco,

Tudo que é matéria

E não sobre nem mesmo a Terra

Para nos enterrar.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Improváveis corações humanos

Quase me convenci

De algo impossível:

De que pode-se derreter gelo
Adicionando mais gelo.

Mas isto é realmente algo impossível,
A natureza não permite. 

A razão pela qual eu quase acreditei
É que quando eu cheguei com o fogo perto de você, 
Você esfriou tanto, mas tanto...
Até congelar completamente.

Mas efeitos contrários assim
Não acontecem na natureza,
É algo realmente impossível:
Só acontecem mesmo nos imprevisíveis
Corpos humanos.
Quase me convenci
De que,
De fato, eu havia sido intensa demais.
Quase me convenci
De que,
De fato, mais uma vez, eu exagerei nos meus atos.
Quase me convenci
De que,
De fato, eu havia te assustado com o meu jeito.
Quase me convenci
De que,
De fato, eu não merecia amor, eu não merecia abraços.
Quase me convenci
De que eu que sempre erro havia errado.
Quase me convenci 
De que se derrete gelo
Com outro gelo,
Mas isto é algo impossível.


Quase me convenci
De algo impossível:
De que pode-se derreter gelo
Adicionando mais gelo.

Mas isto é algo impossível,
A natureza não permite. 

A razão pela qual eu quase acreditei
É que quando eu cheguei com o fogo perto de você, 
Você esfriou até congelar completamente.

Mas efeitos contrários assim
Não acontecem na natureza
Só acontecem mesmo nos corações 


E então o resultado exato das relações que não dão certo
Não é encontrar um culpado,
É, sim, de fato, saber que o amor não cabe
Em espaços 



quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Períodos de perda

Ando por aí,

A milhares e milhares de passos,

A procurar por você em todos os cantos,

Em todos os rostos,

No que sobra do raio de sol,

No meio das sombras,

Nas frestas das janelas dos bares,

Nas sombrias noites frias,

No início das manhãs,

Nas festas em que me sinto tão vazia.

E você nunca está,

Em nenhum corpo,

Em nenhum canto,

Em nenhum lugar.

Você nunca está.

E junto disso tudo,

Talvez pior do que isso tudo,

É que quando eu me pego a me olhar,

Quando eu arrisco a procurar por mim,

Eu também não me acho.

Ser luz quando a gente se conduz