quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Desaguar

De tanto olhar o mar
Imaginei que era mar
Os cabelos ondulados
Sobre os ombros da menina.
Com tamanha profusão
Eu observava o mar
E acumulei abundância
Sem vistoria nem comedimento,
Visto que o excesso do encanto,
De ondas e mais ondas,
Crescem senão para sepultar
Algo que nasce por dentro
E mata, pouco a pouco,
Os limites do manejo
Da libido
Do desejo.
Deus, o que é sentir o mar sem sequer o tocar...
De tanto olhar o mar
Converti-me em onda,
Entre um intervalo e outro,
Uma quebra, uma fração de segundos,
Uma pequena frustração
Para chegar a calmaria.
Por um instante, não sabia onde estava.
Eis aqui a importância de se perder, vez ou outra:
Recuperar-se.
Entre visões azuladas
No dilúvio amontoado
Do ser céu, de ser sua, do ser mar,
Observar o mar, pois este metamorfoseia
E cura o ser em terapia que alaga.
Escutá-lo, estremece.
O mar tem um quê
De encanto e perigo.
Quem vê a superfície
Não pode imaginar
Os seres que deslizam
O assoalho de terra firme
Onde só pisam os peixes-ogros
Onde homem nenhum é permitido entrar.
No entanto, apesar de avisos, ousam entrar...
Por maluquice, que seja,
Para evocar a tréplica
De questão que não pede resposta.
O mar que lava,
Também purifica e salga
A vida sem tempero,
Como fazem os tais cabelos
De menina que, de tão encantadora,
Dá gosto na densidade sem condensação
E cria asas para golfinhos
E encobre crianças
Que menosprezam o ar da sua força.
O mar que dá e recebe em troca
É natureza que dá a vida para um dia vê-la morta.
O mar que pede, nada em troca,
E pede nada, exceto poder ser mar.
Por fim, tirou o respiro de mim
Que sempre soube nadar
E, me afogando nos cabelos
Ondulados de menina,
Sentindo o gosto salgado do mergulhar,
Pude, por fim, sentir o prazer que é desaguar.

Lívia Gallo

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