Instalou-se sobre a paineira do terreno baldio
Pelada de folhas e flores cor de rosa
Um corvo de pouso manso e de olhar vadio
Os olhos, o bico e a pluma sendo unos
Como se fosse um cansado
A cabeça imóvel a estudar do alto tudo
Era um ponto preto isolado no mundo
O corvo era lindo, polido, mas todos o julgavam imundo
E tínhamos tantas coisas em comum...
Ele voltou todos os dias
Nos tornamos amigos
Ele foi se encontrando comigo
E eu fui me encantando com ele
Ele pousou na rede comigo
Eu deitei na sede da presença dele
Então, um dia, o corvo alçou voo
Sem destino de volta
Fiquei a esperá-lo
Primeiro, me revoltei
Depois, me senti um nada
Agora já tão cansada...
Farta da demora
Finalmente descobri a coordenada
O destino do corvo era orientação para mim
A direção exata de ser livre:
Soltar, esquecer, deixar ir.Lívia Gallo
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