Ultimamente não tenho olhado tanto para o meu reflexo. Não é que eu não o procure mais ao passar pelos vidros de casas e carros na rua. Até reprovo a falta de espelho em banheiros, mas em questão de segundos me habituo à situação. Também não é que não queira mais me ver de frente ou de banda. Acontece que viver todos os dias com o mesmo rosto leva à exaustão. Às vezes, me pego imaginando como seria habitar, com o meu temperamento, outros corpos. Com essa índole malcriada, eu não ia querer migrar para outra matéria qualquer. Quando menos, ceder a tal possibilidade tão facilmente seria uma grande calúnia, uma falsidade, algo muito artificial. Todavia, concordo que com um pouco de insistência, mas não tão logo, eu daria um quê de aprovação, depois de muito morosamente relutar. Então, me deixaria levar, certa de que em pouco mais de dois minutos eu teimaria em voltar. Mas se o tempo corresse demais, distraidamente, eu me acostumaria, não ia ligar de ficar - mas não sem saudade, não sem lamentar. Eu, fora de mim, talvez não fosse mais assim, embaraçada, apreensiva, apessoada e insistente em tramar mil planos para modificar a vida e não cumprir nenhum deles, nem sequer um ou dois. Fora de mim, talvez eu me amaria mais, ou, quem sabe, apenas desdenharia de mim mesma. Pode ser que eu amaria mais a minha casa, a minha casca, o meu semblante nada peculiar; e também o peso das minhas ideias, o jeito desajeitado de falar e a inclinação para a mudança sem prática. Na verdade, eu sei que faria uma prece urgente e incluiria um pedido de desculpa. Mas é certo que o que mais me mortificaria, fora de mim, seria correr o risco de não apreciar aqueles que tanto amo, aqueles que aprendi a amar. Aliás, não vou me preocupar, pensar sobre tudo isso não me moveu externamente a nenhum lugar, eu continuo aqui, eu ainda quero ficar.
Lívia Gallo
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