terça-feira, 2 de junho de 2020

Personagem principal

Sempre
Senti
Que não pertecia
Aqui, ali.
Onde estava eu
Quando criaram 
Os livros?
Os filmes?
As músicas?
Onde estava eu 
Quando criaram 
O mundo?
O sucesso?
A felicidade?
Estava eu no fundo do poço?
No canto do quarto,
Como todos os dias?
Por onde andava
A minha alma?
A minha fala?
As minhas paixões escondidas?
Ser minoria não é ser
Menor,
Mas é sentir-se
Menor,
O que, no fim, dá na mesma.
É claro, irão ditar o ritmo, 
O tom da raiva.
Porque minoria foi feita
Para calar,
Para controlar,
Para ser julgada,
Para desencorajar.
Quando a minoria vê,
A injustiça é tão grande,
A história é tão longa,
Que nem se queimar o mundo todo...
Eu me pergunto,
Aonde estou no mundo?
Será que isso é tudo?
Então creio que ficarei
Mais um dia escondida.
Tantas vezes sinto que não vivo,
Apenas existo.
É que no mundo deles
Não há espaço para nós.
Rezo para chegar o dia
Em que eu possa me ver,
Sem dó, sem pena,
Na arte,
Nas notícias,
Sem peso,
Com dádiva.
Rezo para que meu amigo possa se ver,
Se reconhecer.
E a gente possa se amar sem medo.
Rezo para que a gente possa ver,
Finalmente, 
Aonde a "gente menor" estava,
Com tanta admiração,
Mas tanta admiração,
Que a gente não corra o risco de sumir 
Nunca mais.

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Ser luz quando a gente se conduz