segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Histórias dos mares salgados que ninguém pode ver

Me lembro bem,

Quando eu era criança

A minha mãe me deu um tapa e disse "não chora",

Mas eu chorei, interiormente,

E, a partir daí, eu passei a vida engolindo o choro,

Passei a vida tentando não chorar,

Afinal, eu respeito a minha mãe,

Mesmo quando meu coração queria derramar mais água que uma usina hidrelétrica,

A voz da minha mãe me falava "não chora"

E em público, eu não chorava,

Mas, sozinha, meus olhos inundam a minha casa.

Eu respeito a minha mãe,

Mas eu não percebi, naquele dia, que quando ela me falou para não chorar,

Ela estava cansada de tudo, exausta do trabalho, de ter que cuidar de outras vidas,

Preocupada com o dia seguinte, tentando não surtar

E que, provavelmente, ela estava querendo chorar, mas não podia

E então ela me disse: não chora.

Eu respeito a minha mãe,

No dia do tapa, tarde da noite,

Quando ela quis inundar aquele vestiário com lágrimas, ela não pôde

E então ela provavelmente sentiu que o mundo era injusto e não a respeitava,

Provavelmente ela percebeu que nem ela mesma podia se respeitar e chorar, ali,

E então ela bradou: não chora. 

Eu não chorei, externamente,

Mas hoje vejo que, naquele dia, minha mãe e eu

Estávamos a chorar um mar tremendamente tormentoso

Bem no fundo de nós.


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