quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Dia de fome

Passei o dia sem comer.

No início, logo de manhã, antes do sol aparecer,

Quando estava sem fome e bamba de sono, preferi ficar sentada debaixo da coberta, esperando dar a hora de sair, em vez de arrumar o lanche.

E o pensamento disparava feito mãe: na hora que a fome bater, vai se arrepender.

Depois, já na hora do almoço, 

Quando a fome bateu,

Fui atrás da comida.

Subi no ônibus no intervalo do serviço,

Fui em direção à minha casa,

Numa viagem de vinte minutos,

Num temporal danado,

Numa vontade de tomar café com pão e manteiga,

Saí do ônibus, corri para a casa,

A chuva já tinha me pegado três vezes, só naquele dia,

E do ônibus até lá, foi apenas uma chuva a mais, eu sabia que teriam outras durante o dia.

Cheguei em casa, não havia chave no bolso.

Procurei em todos, indignada, não estava em nenhum lugar. 

Fui à casa ao lado, a dona do imóvel que alugo atendeu,

Perguntei se tinha uma chave reserva para a minha porta,

Ela pediu que eu entrasse em sua casa, disse que tinha, em algum lugar.

Procurou, procurou, procurou,

Subiu, desceu escada, a pobre da velhinha,

Se demorou, se desculpou, disse que não estava encontrando,

Perguntou se eu queria me sentar para tomar uma xícara de chá para passar o frio, já que eu estava molhada,

Eu agradeci, disse que não precisava se preocupar, voltaria para o trabalho, já estava quase na hora.

Mais vinte minutos de viagem,

O estômago ainda vazio, fazendo um buraco em mim. 

A fome é isso, um vazio,

Quando a gente procura,

Quando a gente se esforça,

Quando a gente realmente tenta

E nada chega,

Além de temporal.

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Ser luz quando a gente se conduz