Passei o dia sem comer.
No início, logo de manhã, antes do sol aparecer,
Quando estava sem fome e bamba de sono, preferi ficar sentada debaixo da coberta, esperando dar a hora de sair, em vez de arrumar o lanche.
E o pensamento disparava feito mãe: na hora que a fome bater, vai se arrepender.
Depois, já na hora do almoço,
Quando a fome bateu,
Fui atrás da comida.
Subi no ônibus no intervalo do serviço,
Fui em direção à minha casa,
Numa viagem de vinte minutos,
Num temporal danado,
Numa vontade de tomar café com pão e manteiga,
Saí do ônibus, corri para a casa,
A chuva já tinha me pegado três vezes, só naquele dia,
E do ônibus até lá, foi apenas uma chuva a mais, eu sabia que teriam outras durante o dia.
Cheguei em casa, não havia chave no bolso.
Procurei em todos, indignada, não estava em nenhum lugar.
Fui à casa ao lado, a dona do imóvel que alugo atendeu,
Perguntei se tinha uma chave reserva para a minha porta,
Ela pediu que eu entrasse em sua casa, disse que tinha, em algum lugar.
Procurou, procurou, procurou,
Subiu, desceu escada, a pobre da velhinha,
Se demorou, se desculpou, disse que não estava encontrando,
Perguntou se eu queria me sentar para tomar uma xícara de chá para passar o frio, já que eu estava molhada,
Eu agradeci, disse que não precisava se preocupar, voltaria para o trabalho, já estava quase na hora.
Mais vinte minutos de viagem,
O estômago ainda vazio, fazendo um buraco em mim.
A fome é isso, um vazio,
Quando a gente procura,
Quando a gente se esforça,
Quando a gente realmente tenta
E nada chega,
Além de temporal.
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