quarta-feira, 9 de agosto de 2017

8 de julho

8 de julho


Acordei tarde naquele sábado, coisa que já era costume acontecer. Eu estava habituada a preencher as madrugadas com filmes, livros e músicas - não necessariamente nessa ordem, e muitas vezes escolhia apenas uma das opções - e, portanto, o sono tardava a chegar, sempre sendo adiado para às três ou quatro da manhã. Por vezes, só chegava às cinco.
O meu relógio biológico, não podia ser diferente, acabou se acostumando com as alvoradas em claro e quando, enfim, meu corpo padecia e caia no sono, o despertar só se dava ao escutar as conversas vindas da mesa da sala, na hora em que o almoço era servido, junto das andanças pela casa, da barulheira das prosas paralelas e dos talheres colidindo contra as louças no ato de catar a comida.
Entretanto, em muitas ocasiões eu acordava antes, com o meu pai batendo na porta do quarto dizendo que já passavam das dez da manhã e que eu já havia perdido metade do dia na cama. Eu sempre me assustava com o jeito inesperado e abrupto com que meu pai batia na porta do quarto e, constantemente, acordava com o coração disparado. Mas, de certa forma, hoje, eu entendo os motivos do meu pai. As manhãs são realmente muito bonitas e oportunas para serem desperdiçadas inteiramente na cama. Fui percebendo isso aos poucos e, de cá pra lá, não mudei tanto ao ponto de não amar o leito profundo a qualquer hora, todavia, independente do quanto, é certo que mudei e acordar cedo tornou-se algo frequente.
Quando meu pai batia na porta do quarto, eu olhava para o relógio e, muitas vezes, ainda eram nove da manhã. Naqueles momentos, eu sentia raiva, uma raiva que passava rápido, mas que me deixava enfurecida por alguns minutos. Então, eu me levantava contrariada, sentindo por todo o corpo o cansaço das poucas horas de sono e, com o passar do tempo, parecia que ia se multiplicando por qualquer número ordinário que o resultado fosse igual ao infinito. Acontece que toda a fadiga, exaustão e fraqueza eram consequência direta de como eu estava conduzindo a vida e nada tinha a ver com as batidas do meu pai na porta do quarto. Hoje eu percebo o quanto meu pai estava sendo carinhoso ao desejar que eu aproveitasse mais o meu tempo com coisas produtivas, que fizessem bem para mim, em vez de ficar dormindo até na hora do almoço.
Cumpre-se dizer que o meu fetiche pela diversão noturna era coisa malcriada. Não queria assistir a filmes durante as tardes livres, mas sim quando a noite chegava. Era sempre no cair da noite que excitava em mim o desejo de deitar no sofá da sala no escuro, de frente para a televisão, com um pote inteiro de pipoca pronto para ser devorado.
Há coisas que são possíveis somente quando a madrugada chega, pois é horário em que as pessoas se retiram para dormir e se põem ocupadas com sonhos, afundadas no esquecimento dentro dos travesseiros. O silêncio da madrugada, por exemplo, é canção de coral bem treinado, com vozes afinadas se encaixando em tons perfeitos. Além disso, na madrugada, é pouco provável que alguém te envie mensagens puxando conversa, relembrando compromissos desagradáveis, como datas de entrega de trabalhos da faculdade, às quais sempre fiz esforço imensurável para esquecer. Na madrugada, o celular pode ser deixado de lado e o filme de romance torna-se companhia suficiente.
Não é que eu tenha escolhido a solidão, mas estar só, às vezes, me faz bem. Na madrugada, os momentos de solidão são possíveis. É claro que, eventualmente, acabo caindo no anseio por uma companhia mais afável, no entanto, é como a vontade de comer chocolate, vem e logo passa.  


(...)


Aquele sábado de madrugada foi mais um regado à diversão. Passei a noite assistindo Moonlight, Thelma & Louise e, para arrebatar, Boys, todos eles com temática voltada para o amor homoafetivo. É que aprecio ver na tela o que não consigo viver na vida real (não por escolha, mas por oportunidade). Para mim, os filmes são uma forma um tanto fácil e bonita de me aproximar do amor.
Com exceção do último, os outros dois eu já havia assistido por várias vezes. Eu gosto de ver a mesma película em várias ocasiões, que é quando percebo detalhes que normalmente passam despercebidos. Mas só assisto por mais de uma vez se, na primeira, fez meu coração estremecer, caso contrário, passo para o próximo sem vontade alguma de voltar.
Cada um dos filmes me arrebatou por dentro de uma forma extremamente diferente, obviamente que por causa da história e do contexto neles apresentados, mas, de certa forma, há algo de semelhante na forma com que cada um me tocou.
O somatório de sentimentos arrecadados em todos eles, quando terminei de assistir, às cinco da manhã, me fez dormir com algo intenso dentro do peito, que parecia próximo do que sentimos quando estamos apaixonados. Eu senti uma leve dor. Naquele momento eu pensei que era dor de amor, e talvez fosse (permita-me abrir um pequeno parênteses aqui. É estranho essa combinação dor e amor, na minha opinião, deveriam ser antônimos ou incompatíveis, se até Caetano se questionou, “pra que rimar amor e dor?”, suponho que há algo de errado no jeito como as pessoas estão fazendo as coisas). Mas, talvez, todo o sentimento pós-filme fosse algo criado apenas na minha imaginação. Na verdade, eu não sabia dizer. E em contraposição à ideia de um filme que eu havia assistido há poucas semanas, que dizia que as pessoas sabem que é amor ao sentir, quem realmente consegue explicar ou saber o que sente?


...


Quando finalmente levantei da cama, o relógio já marcava quase meio dia. Fui ao banheiro lavar o rosto e quando cheguei na cozinha, mal havia pegado a xícara e a garrafa de café quando minha mãe me avistou do pátio e veio em minha direção soltando frases que eu não conseguia entender por causa da distância. Mas percebi que ela falava várias coisas ao mesmo tempo, numa rapidez que misturava frase em cima de frase. Então, quando ela finalmente se aproximou, perguntou: entendeu?
- Mãe, eu não entendi nada.
Então ela começou a falar novamente. Me lembrou que era dia de arrumar a mala para eu viajar; que a mala grande estava suja no andar de cima, guardada há meses, e era bom eu buscá-la logo para limpar. Disse que era pra eu deixar de ser tão descansada com as coisas, que era pra eu me preocupar mais com os compromissos. E terminou dizendo que faria questão de estar viva para ver como eu ia me virar com uma casa. Além disso, a viagem seria longa e o destino distante de casa, portanto, eu não podia esquecer nada.
Eu sabia de tudo isso e, às vezes, irrita a mania dos pais de acharem que os filhos são eternas crianças. Além do mais, não sou tão irresponsável ao ponto de não me programar para os compromissos. Eu já havia me planejado para arrumar a mala da viagem dias antes, mas minha mãe provavelmente não acreditaria nisso, então preferi me manter calada, escutando as frases que ela repetia. Apesar de tudo, eu entendo a minha mãe e não tiro dela a razão de me cobrar mais responsabilidade. Nos últimos tempos, eu não andava dando o exemplo de pessoa que cumpria com as obrigações. Estava deixando os compromissos passar por pura falta de vontade, sem me preocupar com o que perderia nos encargos sérios, nas aulas e nos trabalhos deixados de lado na faculdade. Portanto, era mais do que justo escutar calada. No mais, penso que toda a preocupação de mãe é uma demonstração de amor que ninguém mais no mundo é capaz de dar. Então, eu concordei com ela, disse que só terminaria o café e começaria a organizar tudo.
Fui para o quarto com o café quente na boca, com a intenção de começar a arrumar as roupas, separá-las e colocá-las na mala. Abri as portas do armário e, quando vi toda a bagunça, não sabia mais nem por onde começar.


(…)


A bagunça de roupas dentro do armário havia sido armada durante meses, naquele pequeno espaço dividido por prateleiras, escondido no canto do quarto, do mundo e das visitas, por duas portas que se fechavam num encaixe perfeito, uma encerrando a outra, fazendo do interior lado obscuro e universo desconhecido. De modo que a grande confusão que ali se armara passava despercebida aos olhos de ingênuos visitantes, dos pouquíssimos que tinham curiosidade de entrar naquele cômodo. Todavia, para quem tinha conhecimento da bagunça do armário, como eu, minha irmã, que dormia no mesmo quarto, e a Rosália, que cozinhava e limpava a casa nos dias de semana, podia jurar, não parecia coisa de meses, mas de ano.
A despeito de toda a bagunça, fui adiando por meses a arrumação da desordem, da mistura de roupas que pareciam trapos diante da situação em que se encontravam. Era de se encabular, como naquele pequeno espaço disponível no armário cabiam tantas roupas emboladas? Nos momentos depois do banho, em que era preciso escolher as peças que seriam usadas ou eu seria obrigada a andar desnuda pelos cantos, as questões não paravam de chegar. Sempre na hora do atraso, onde foi parar o short preto, aquele velho e desbotado? O que aquela blusa de frio fazia na parte das roupas de calor? A camisa xadrez branca estava na máquina de lavar?
E a mistura de roupas se agravava no simples ato de arrancar uma peça visível ou ao alcance das mãos, porque ao puxar uma camisa que estava de baixo de outra, ou por baixo de uma pilha com tantas outras, as de cima vinham junto e, então, desmoronavam dentro do armário, fazendo lembrar a fatídica cena das Torres Gêmeas desabando para tornarem-se destroços, e, ao final de tudo, estacavam-se. Depois de inúmeras ações como esta, dentro daquele armário, eu já não sabia dizer onde terminava uma calça e começava uma blusa.
Neste momento, pensar nesses fatos faz aumentar em minha memória o incômodo que causava esse cenário de horror íntimo e doméstico, que presenciei num período que parecia, digamos, infinito. Cabe a mim, personagem da situação, testemunha e criminosa confessa, dizer que fui culpada, inclusive nos momentos em que me fiz de vítima. Ai, o sentimento de exclusiva e particular culpa…! Como é doloroso ser vítima da própria infração. Entretanto, me incumbe dizer, não em minha defesa, que o tanto que a bagunça incomodava não era coisa insuportável, pois quando é, os anjos do universo bem sabem, saltamos para a etapa do aniquilamento do desagradável. Eu, todavia, não encontrei ânimo sequer para reverter a situação. A bagunça do armário prosseguiu escondida por muito tempo, refugiada e protegida por mim, no escuro, por trás de duas portas.
Ouso dizer que grande parte da vida passamos assim, com pesos que são estorvos nas costas, mas suportáveis, com incômodos que engolimos a seco, para torná-los admissíveis ou toleráveis. Passamos a vida cheio de problemas, incômodos e aborrecimentos que teimamos em esconder, deixando-os guardados, sem fazer algo para vencê-los ou mudá-los. A vida é, em grande parte, um eterno suportar, justamente nós, pobres seres, que nascemos e crescemos sem suporte mental algum.
Peço perdão antecipado. Permita-me fazer uma pequena intervenção que muda completamente o tema. É que aprendi em algumas aulas de Comunicação Social e na prática, assistindo aos telejornais, que depois de se noticiar acontecimentos tristes ou de cunho depressivo, há sempre que se anunciar fatos agradáveis, para gerar contentamento ou atiçar o prazer repentino nas pessoas, senão as mesmas não aguentam o ritmo apático e perdem o interesse pelo noticiário. A você que lê, peço que não me entenda mal, a mudança de assunto que criei aqui aconteceu mais por acidente do que por planejamento. E, não minto, me aproveitei da situação. É claro que a usaria a meu favor, afinal, é de interesse que o leitor permaneça (ou ao menos fique por um instante) com olhos curiosos e interessados nas palavras aqui dispostas.
Sem mais delongas, já que sou culpada, faço aqui a minha defesa: acredito que os fatos da vida acontecem sempre de forma natural ou espontânea. No sentido de que, para mim, e para os escritores embasados no budismo e nas ideias da física quântica, tudo acontece no seu devido tempo. Por isso, não há porque criar momentos de tensão, ficar resmungando pelos cantos ou criando meios ilusórios para se conquistar algo se não é tempo de acontecer. Pode ser também que determinado fato nunca venha a acontecer, mas outras coisas surgem como opção e o universo está sempre mandando sinais para nos mostrar.
É perceptível que as tentativas para se conseguir algo, feitas por impulsos ou por planejamento, por preparação ou de forma impensável, quando não geram os resultados esperados, produz frustração enorme nas pessoas, mas não devia. Em minha singela opinião, o que deve caber em cada consciência não é o valor da corrida desenfreada para se conseguir algo, mas sim a compreensão e o entendimento de que o melhor para a vida está acontecendo agora, e o agora é o momento certo. Independentemente do que esteja acontecendo, serve para mostrar coisas antes não vistas, para nos evoluir como pessoas, nos ensinar e nos iluminar.  É que acredito piamente que tudo na vida tem um propósito (apesar de ter consciência que posso mudar de opinião da noite para o dia).
Decidi colocar o nome para esse conjunto de ideias de Teoria do Tempo Certo.
Mas, voltando à bagunça de roupas no armário, tratei de fazer um trato comigo mesma e grafei meu nome no papel da imaginação. Não havia com o que me preocupar, a hora de organizar a bagunça chegaria, cedo ou tarde. Algumas coisas são inevitáveis de acontecer e a organização da desordem do armário finalmente calhou a chegar.
Naquele sábado a visão da desordem do armário me atingiu em cheio, porque, dessa vez, não tinha como ignorá-la.
(...)


Depois de encarar por alguns minutos, estática, a mistura de roupas no armário, virei o café que nem estava mais tão quente e comecei a tirar as roupas de lá. Fui pegando bolos de roupas e as jogando em cima da cama, sem pensar, sem condolência. Pouco a pouco eu ia enchendo os meus braços com as roupas e as lançava na cama. O gesto foi se repetindo diversas vezes. Quando, enfim, terminei, parei, me concentrei e examinei por alguns segundos o montinho que havia se criado. As roupas que provavelmente tinham sido passadas e guardadas com cuidado para não amassar, já não conheciam mais a sensação do que era passar pelo ferro quente para serem alisadas.
Então, peguei cada peça de roupa e comecei a dobrar, cuidadosamente, uma por uma. Busquei a mala no andar de cima, a limpei com um pano molhado e a abri deitada no chão do quarto. Fui colocando gentilmente as roupas dobradas dentro dela.  Pouco a pouco, o montante de roupas foi diminuindo, até desaparecer por completo. Em questão de hora o montinho de roupas em cima da cama não estava mais ali. E as roupas se transformaram em bagagem pronta para pegar estrada. Senti orgulho de mim e chamei a minha mãe para olhar. Ela avistou o armário aberto, sem roupas misturadas, a mala arrumada e ficou feliz em ver tudo organizado. Me elogiou, mas disse que eu estava esquecendo o chinelo, a blusa jeans nova que ela havia estendido no varal e a bolsa para guardar a escova de dente, a pasta e o filtro solar. Eu olhei para ela, sorri e a abracei como agradecimento, tem gestos que soam melhor do que palavras.  


(...)


Neste momento, você deve estar se perguntando para onde eu vou viajar, querendo saber qual o destino da mala. A verdade é que não pretendi em nenhum momento fazer mistério. Acho que me perdi um pouco na escrita. A viagem é com destino para a Colômbia, para estudar um semestre de Comunicação Social.
Um dia antes de eu partir em viagem para o Rio de Janeiro, onde eu pegaria o avião para Bogotá, recebi alguns poucos amigos em casa, com pizza, refrigerante e um doce feito pela minha irmã para a ocasião especial. O meu psicológico, que estava sendo treinado por dias para não cair em desalinho na hora da despedida, adequou-se à situação. A arrumação da mala já havia acontecido de forma tranquila e a saudação final aos amigos não podia ser diferente.
A noite foi calorosa, apesar do frio que fazia. A lareira da casa foi acessa, o papo com os amigos agradável, lotado de risos. A pizza tinha queimado um pouco, mas chegou até a ser elogiada. Percebi, em alguns momentos, depois da comilança e dos assuntos animados, que o momento dos amigos irem embora foi sendo adiado, disfarçadamente, nas vezes em que o silêncio tomava conta do ambiente em volta da mesa. Foi ficando um pouco tarde e o momento da despedida foi se aproximando e, ainda assim, foi sendo adiado, pelos amigos, por mim. É que me parece que nenhum dos dois lados queria dizer tchau, nem o lado deles e nem o meu.
E nos momentos de silêncio, que gradualmente foram aparecendo, depois de tantas conversas, me deu muita vontade de chorar. Foram nesses momentos, em que o assunto não chegava, que cada um na mesa foi transmitindo para o outro a responsabilidade de puxar o “então, vamos embora, já é tarde”, seguido de um abraço e de uma frase de “boa viagem”. Mas, na hora do silêncio, ninguém se atrevia a puxar a despedida. Quando o silêncio era cortado, era com algum assunto que os permitia ficar um pouco mais. Não sei dizer se foi por falta de jeito, por vergonha ou porque não queriam mesmo ir embora, mas achei a disposição dos meus amigos em permanecerem lá, sentados em volta da mesa, de um carinho e amor como poucos presenciados na vida. É daqueles momentos que a gente guarda sem os amigos saberem, aquecido no peito, quietinho, porque é algo tão lindo que você quer que seja só seu.
   
    Dia de partir


No dia de partir, acordei muito cedo e com os pensamentos bastante confusos. Era manhã atípica e todos da casa acordaram cedo para preparar o café da manhã. No meu quarto, a mala estava arrumada, fechada com cadeado. Em cima da mesinha, uma lista com tudo que eu precisava levar. Mesmo sabendo que todos os pertences já estavam guardados seguramente, cada coisa no seu devido lugar, antes de me sentar à mesa do café, repetia incessantemente a vigília da lista. Olhava para cada ítem e puxava da memória o momento que havia colocado algo ali outro acolá. Conferi pela última vez, não faltava nada.
Os últimos minutos com a família foram estonteantes, completamente singular. Me lembro como se fosse hoje. A vontade que dá é de me despedir todos os dias, para ter a culinária do meu irmão à mesa, a batata assada passada na frigideira, o café do meu pai, a companhia adorável da minha irmã e a alegria e cuidado sem fim da minha mãe para ajeitar a mesa e me olhar com cara de saudade. Mas, talvez, se despedidas assim acontecessem todos os dias, pode ser que cedo ou tarde perdessem a graça. Apesar de eu saber que coisas boas são sempre boas, quantas vezes forem necessárias, todos os dias da vida, se assim precisar.
Naquele domingo de despedida, minha mãe, meu pai, minha irmã e meu irmão prepararam um café da manhã especial. Até a Miúcha, a gatinha de estimação da casa, que na maioria do tempo fica adormecida, acordou e rodeou a mesa do café da manhã (não me iludi pensando que foi por minha causa. Ela só queria ganhar alguns pedaços de comida). Dentro de mim havia um sentimento antecipado de falta. Da falta que sentiria das coisas rotineiras, dos rostos familiares e amigos. Senti falta antecipada da reunião para comer em volta da mesa da sala e da gata miando, pedindo um pedaço do que quer que fosse que estivéssemos colocando na boca.
A mesa estava posta com o conjunto de pratinhos e xícaras especiais e a casa foi tomada pelo cheiro das comidas que estavam sendo preparadas. Batata assada passada na frigideira, duas opções de ovo, cozido ou frito, café quentinho que tinha sido coado há pouco. A casa se transformou em um verdadeiro aroma de sabores que despertavam o paladar e enchiam a boca de saliva.
Depois do clima agradável do café da manhã, foi chegada a hora de ir para a rodoviária para me despedir. Tinha que embarcar no ônibus para o Rio de Janeiro para, no dia seguinte, pegar o avião para Bogotá. Em cada um da família dei um abraço apertado. O choro que lutei para fazer ficar calado, não me respeitou e danou-se a falar. Tudo bem, eu pensei na hora, momentos espontâneos são necessários.
O relógio marcava quase dez. Era hora de partir. Já ia entrando na área de embarque para tomar o ônibus para o Rio, mas o vigia disse que só uma pessoa poderia entrar comigo como acompanhante. Então, meu pai foi para me ajudar a carregar a mala enorme e pesada. Quando o bagageiro do ônibus finalmente foi fechado, dei um último abraço no meu pai, olhei para trás e vi a minha mãe e a minha irmã, ambas chorando. Acenei pela última vez um tchau cheio de saudade e entrei no ônibus. Procurei o assento 17, do lado da janela. Me sentei e olhei para fora, o vidro do ônibus era de insufilm preto e quem estava de fora não conseguia ver o lado de dentro. Poucos minutos depois, vi ao longe, do lado de fora da rodoviária, minha mãe, meu pai, meu irmão e minha irmã entrando no carro e indo embora. Foi então que me senti sozinha. Foi então que danei a chorar, virada para a janela, escondida do mundo pelo vidro escuro.
Naquele momento, me senti desprotegida e um pouco sem forças para enfrentar o mundo, com medo de nem conseguir chegar no meu destino final. Todo o emocional que eu havia lutado para conservar, saiu em retirada naquele assento e eu não sabia para onde. Mas depois da angústia e tristeza, quando o ônibus já estava andando por bastante tempo, respirei fundo e decidi encarar a situação de frente. Parei de chorar, comecei a pensar positivo, como sempre tentava fazer na vida, e me encorajei a enfrentar o medo e as adversidades com coragem.
Ao olhar a paisagem de fora, quanto mais o ônibus corria, mais as coisas iam ficando para trás. Então, me lembrei que tudo acontece no tempo certo e o medo e a saudade prematura foram sendo aceitos e respeitados. Somente dentro daquele ônibus, durante as seis horas e meia que passei viajando até o Rio, refleti muito e desconfio que aprendi um tanto. A segurança que foi surgindo em mim, pouco a pouco, me deu a certeza de que se tudo acontece no seu tempo, aquele era o de arrumar a mistura gradativa de falhas que eu sempre havia cometido. O rumo que tomei para a Colômbia, hoje eu percebi, foi mais para aprender sobre a vida do que para aprender dentro de salas de aula. Foi o momento certo de arrumar a bagunça da minha vida.

Lívia Gallo

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Ser luz quando a gente se conduz