sábado, 29 de abril de 2017

Como era amar...

Sinceramente, enganei-me, não é possível esconder por muito tempo todo o sentimento que carregamos. Quando algo é forte demais por dentro, a mente, o corpo, a boca não suportam acobertar. Parece que vem à tona de forma natural. É como água que não conseguimos segurar por entre os dedos e - o pouco que cai - molha um tanto. Entretanto, não é bem assim. O amor, por exemplo, não se mede em escalas com réguas graduadas. E não existe controle capaz de o conduzir piamente de forma regular. É que amor é coisa um pouco louca e chega com audácia, em grande parte das vezes, sem avisar. O amor, ora grita em vez de calar, ora oculta em vez de apontar. O amor...
Não é simplesmente aí que quero chegar, até porque não está em minhas mãos manual que ensine as regras com tópicos milagrosos, quase sobrenaturais, para te fazer acreditar que é capaz, mas deve-se, primordialmente, lançar as chances nas mãos divinas e esperar esperançosamente por uma surpresa que pode muito bem nunca chegar. Portanto, coloquemos, primeiramente, em nossas mãos, assim parece menos difícil, afinal, amar é, simplesmente, amar e suponho que somos todos capazes, mesmo quando não somos.
Fato é que, mais uma vez, meti os pés pelas mãos, eu confundi verbos. Me dei conta, entre uma atitude e outra, de que eu estava por muitos instantes - e por muita distração - negligenciando o amor e passei a jogar em detrimento de amar. Pudera eu, deveras, não conduzir a mim mesma. Por tantas outras vezes me dei conta de que, nesse caso, não cabe disputa, não é questão de perder ou ganhar – mas me esqueci de lembrar. É verdade, sofri muitas derrotas por me portar como se estivesse em uma briga de conquista. Não me eximo da responsabilidade, mas ainda suponho que no fundo, bem no fundo, quase submergido, eu sei, isso ainda seja amar. Das poucas vezes que considero que o amor me tocou por inteira, em todas elas me portei, em um momento ou em outro, como se estivesse em um jogo de azar. Fiz minhas apostas, mesmo sabendo quase nada de probabilidade. Confiei na sorte, e agora penso que talvez fosse melhor ter colocado nas mãos de Deus. Me equivoquei tantas vezes que até pensei em abortar todo o plano. Perdi as contas de quantas vezes quis me esquivar. Eu não queria perder e continuei a fundo, mesmo sabendo que não havia chance de ganhar. No final, após atitudes errôneas e insistentes, quando o choque de realidade bate com o gosto forte de cachaça, não me surpreende o meu brado consentido. Já era de se esperar, a minha desconfiança não falha. Eu devia ter aprendido de primeira: amor é misto de destino com conquista. Às vezes, o segundo sem o primeiro causa desistência, mal-estar. O que quero dizer é que o amor chega de repente, sem avisar, abre a porta, senta-se na sala de estar e fica. E pode ser que a chave da fechadura não encaixe. Pode ser que forçar demais ocasione quebra, rachadura, então é melhor não pressionar o que não combina. A minha chave que o diga, não era o protótipo certo, tentei girar algumas vezes, sem nenhum ganho, nenhuma sorte, não consegui entrar, então, sem despedida alguma, fui embora.

Só queria que o amor, estoico, estonteante, encantador e lindo como é, fosse correspondido em todo e qualquer lugar, sem precisarmos recorrer aos céus, à sorte. Não queria que fosse assim, ter que passar a me vigiar, calculando e ponderando até onde posso ir, qual a linha limite que não devo e não posso ultrapassar. Mas tudo na vida é lição e aprendizado. Eis aqui o que aprendi: se o amor é algo natural, não me parece viável cobrar de alguém algo que não possa dar. Desconfio que se o amor não chega até certo momento de forma espontânea, é porque já era, não será esse a conduzir-se como par. Cabe dizer que não existe culpado. Me parece que o que acontece é que sentimentos divergentes existem em todo lugar, alguns amores se encontram, outras ainda estão a procurar e outros já entraram, tiraram os sapatos e encontram-se deitados, confortavelmente, na sala de estar.

                                                                                           Lívia Gallo

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Ser luz quando a gente se conduz