Revelei aos céus
A respeito da minha enfermidade
Prostrada sobre o suporte de madeira da igreja
Anunciei que a coisa era séria
Algo que vinha com a idade
Uma moléstia causada pela descrença no amor
E que por mais inexplicável que fosse
Já não me perturbava tanto assim a dor
Então, hoje mesmo, chegou um amigo preocupado
Vindo das bandas de Niterói
Desses que quando se aproxima
A dor que doía, não mais dói
Ele pegou a minha mão
- Senta aqui. O que passa?
- Nada. É só a desatenção do amor.
- Vou jogar pra você as cartas do tarô...
A primeira que saiu foi um cachorro
“É você”, ele disse
Eu reparava a imagem minuciosamente
Ele explicou
Durante toda a vida eu havia me portado como um cão
Um guardião
À espera do amor
Presa num abrigo
Uivando por amparo, por aceitação
Uivando por amparo, por aceitação
E sempre que o carinho de alguém arrisca-se a chegar
Eu transfiguro-me em gata miúda, encabulada
Eu transfiguro-me em gata miúda, encabulada
Igual à minha felina Miúcha
Desconfiada das visitas
Inclusive de pessoas queridas
Inclusive de pessoas queridas
Fujo sem direção
Com medo
Eu corro
Eu corro
Sendo eu gata
Sendo eu cachorro
Apanhei a habilidade de esquivar-me do coro
Coro de gente, coro da vida, coro de pai
Então, eu corro
Do juízo, do critério, do embaraço
Do laço, do amor
Do laço, do amor
Meu amigo me disse
Que posso correr o quanto for
Mas não do encargo de guardiã
Nem de ser cachorro, nem das cartas do tarô:
Nem de ser cachorro, nem das cartas do tarô:
"O baralho não mente, tens encontro marcado com o amor”.
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