segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Cura tarô

Revelei aos céus
A respeito da minha enfermidade
Prostrada sobre o suporte de madeira da igreja
Anunciei que a coisa era séria

Algo que vinha com a idade
Uma moléstia causada pela descrença no amor
E que por mais inexplicável que fosse
Já não me perturbava tanto assim a dor

Então, hoje mesmo, chegou um amigo preocupado
Vindo das bandas de Niterói
Desses que quando se aproxima
A dor que doía, não mais dói

Ele pegou a minha mão
- Senta aqui. O que passa?
- Nada. É só a desatenção do amor.
- Vou jogar pra você as cartas do tarô...

A primeira que saiu foi um cachorro
“É você”, ele disse
Eu reparava a imagem minuciosamente
Ele explicou

Durante toda a vida eu havia me portado como um cão
Um guardião
À espera do amor
Presa num abrigo
Uivando por amparo, por aceitação

E sempre que o carinho de alguém arrisca-se a chegar
Eu transfiguro-me em gata miúda, encabulada
Igual à minha felina Miúcha
Desconfiada das visitas
Inclusive de pessoas queridas

Fujo sem direção
Com medo
Eu corro
Sendo eu gata
Sendo eu cachorro

Apanhei a habilidade de esquivar-me do coro
Coro de gente, coro da vida, coro de pai
Então, eu corro
Do juízo, do critério, do embaraço
Do laço, do amor

Meu amigo me disse
Que posso correr o quanto for
Mas não do encargo de guardiã
Nem de ser cachorro, nem das cartas do tarô:
"O baralho não mente, tens encontro marcado com o amor”.

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