quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O gosto da vida

“Realmente...”
Veio a entonação lastimosa
A concordância ulterior
Decorrente da afirmativa
De que a vida não anda fácil
E nada flexível
“A vida é dura demais, criatura”, constatou
Dona Jandira com sua voz trêmula,
Como um clínico exausto que desvenda doença, depois de intenso estudo,
E entrega o diagnóstico com tamanha morosidade
Que já não resta mais prazo para a cura.
Dona Jandira abanou a cabeça em crítica delicada
Jogou a vista quase completamente cega num ponto remoto
E demorou-se nas reticências...
É que, por vezes, resta sentir a vida,
Silenciar-se, provar da vida,
Assenti-la
E desaprová-la.

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