Há três meses
Um frio impiedoso tomou a praça Frei Orlando
Apesar do azul voraz que apontava o céu
A amplidão tomava tudo embaixo dela
Convertendo a totalidade em conjunto ocaso
Eu mesma, sentada no banco de ferro frio,
Esperando por um milagre do acaso,
Tornei-me poente.
Um arquétipo do início do desaparecimento.
As pupilas dilatadas pela mudança da luminosidade
Colocaram meus olhos em estado de alerta
Estando eu quase completamente oculta
Passei a enxergar melhor ao redor
Percebia com cuidado cada cabelo preto a passar
Reparava com empenho o liso de cada mecha escura
Esperando pela presença
Totalmente omissa
Daquela que jurou fidelidade a Deus
E que não poderia estar em outro lugar, senão enfiada na missa,
Cumprindo seu propósito, como eu nunca fizera.
Ela: porque temia o castigo pela falta à igreja
Eu: porque havia firmado compromisso comigo mesma.
Não sentia culpa por estar oculta,
De espreita, do lado de fora do culto,
No banco frio de ferro duro.
Eu que não havia marcado lugar nem hora
Pedia ao universo ajuda.
Não poderia simplesmente levantar-me e ir embora
Não sem vê-la
Passando pelo beco ou saindo da igreja.
Não sem dizer que faria esforço para esquecê-la,
Que eu clamava por perdão, por ter sido ridícula,
Um pouco estúpida, um tanto tola e chula,
Por ter dado tantos passos sem direção,
Por ter cravado entre nós a traição.
Todavia, eu carecia de perdão.
“Por favor, Altíssimo, me dá a mão…”
Diante da igreja de São Francisco
Parecia que o mundo todo havia passado por lá,
Enquanto caía o dia,
Toda gente veio trotando,
Ante as palmeiras, pelas pedras ancestrais da praça Frei Orlando
Passaram uns meninos alvoroçados saindo da escola
Uma criança parou para jogar bola,
Uma senhora sentou-se ao meu lado, remoendo a doença,
Uma pomba atravessou a rua em perigo de vida,
Cruzou a esquina um frei com passos afobados,
Bufando de calor, rosa como um flamingo,
Vestindo um casaco desbotado com o escudo do Flamengo
E eu sentindo frio...
Diante do banco de ferro da praça Frei Orlando
Creio que o mundo todo passou
Menos quem eu estava esperando.
Não veio de lugar nenhum, nem mesmo da igreja,
Então, sem despedida, eu que já sou um tanto omissa,
Desapareci.
Agora, depois de três meses sem vê-la,
Não aspiro por perdão
Nem imagino onde ela esteja.
Sem cumprir a minha sentença
Há tempo, decidi abortar a minha missão
E ofertei, a mim mesma, a minha remissão.
Um frio impiedoso tomou a praça Frei Orlando
Apesar do azul voraz que apontava o céu
A amplidão tomava tudo embaixo dela
Convertendo a totalidade em conjunto ocaso
Eu mesma, sentada no banco de ferro frio,
Esperando por um milagre do acaso,
Tornei-me poente.
Um arquétipo do início do desaparecimento.
As pupilas dilatadas pela mudança da luminosidade
Colocaram meus olhos em estado de alerta
Estando eu quase completamente oculta
Passei a enxergar melhor ao redor
Percebia com cuidado cada cabelo preto a passar
Reparava com empenho o liso de cada mecha escura
Esperando pela presença
Totalmente omissa
Daquela que jurou fidelidade a Deus
E que não poderia estar em outro lugar, senão enfiada na missa,
Cumprindo seu propósito, como eu nunca fizera.
Ela: porque temia o castigo pela falta à igreja
Eu: porque havia firmado compromisso comigo mesma.
Não sentia culpa por estar oculta,
De espreita, do lado de fora do culto,
No banco frio de ferro duro.
Eu que não havia marcado lugar nem hora
Pedia ao universo ajuda.
Não poderia simplesmente levantar-me e ir embora
Não sem vê-la
Passando pelo beco ou saindo da igreja.
Não sem dizer que faria esforço para esquecê-la,
Que eu clamava por perdão, por ter sido ridícula,
Um pouco estúpida, um tanto tola e chula,
Por ter dado tantos passos sem direção,
Por ter cravado entre nós a traição.
Todavia, eu carecia de perdão.
“Por favor, Altíssimo, me dá a mão…”
Diante da igreja de São Francisco
Parecia que o mundo todo havia passado por lá,
Enquanto caía o dia,
Toda gente veio trotando,
Ante as palmeiras, pelas pedras ancestrais da praça Frei Orlando
Passaram uns meninos alvoroçados saindo da escola
Uma criança parou para jogar bola,
Uma senhora sentou-se ao meu lado, remoendo a doença,
Uma pomba atravessou a rua em perigo de vida,
Cruzou a esquina um frei com passos afobados,
Bufando de calor, rosa como um flamingo,
Vestindo um casaco desbotado com o escudo do Flamengo
E eu sentindo frio...
Diante do banco de ferro da praça Frei Orlando
Creio que o mundo todo passou
Menos quem eu estava esperando.
Não veio de lugar nenhum, nem mesmo da igreja,
Então, sem despedida, eu que já sou um tanto omissa,
Desapareci.
Agora, depois de três meses sem vê-la,
Não aspiro por perdão
Nem imagino onde ela esteja.
Sem cumprir a minha sentença
Há tempo, decidi abortar a minha missão
E ofertei, a mim mesma, a minha remissão.
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