terça-feira, 9 de outubro de 2018

Por não saber

“Oi, tudo bem?”
Foi assim que eu comecei
E você veio me dando risos
Cheia de perguntas
Sobre isso, sobre aquilo.
Perguntou se eu havia melhorado
Sobre quem é que tinha removido os meus sisos
Perguntou se doía
E foi naquela hora que eu percebi que não.
Outro dia você voltou com mais ternura
Riu sobre a minha falta de memória
Indagou sobre o freezer verde desabitado
Sobre o que íamos fazer com ele
E eu não sabia, achei que íamos continuar
Fazendo-o de mesa, colocando tudo o que resta em cima dele.
Você me achou desajeitada e riu.
Penso que foi a melhor resposta que eu poderia dar.
Você sempre desfrutou do meu jeito desastroso
Na hora de pegar o suco ou o pão com queijo.
E não saber das coisas é algo tão normal.
Mas as pessoas envergonham-se por não saber.
Você deve ter me achado estranha
A começar pelo momento em que eu pego o copo para te servir o suco
Mas deixo o copo de lado para te servir primeiro o pão
Então, tudo fico um pouco de lado, o suco e o pão,
O prato esquecido na mesa, o copo esquecido na minha mão.
E também teve aquela vez em que a palavra “toldo”
Me fugiu da memória e você ficou me observando
Sem entender nada.
Ficou esperando uma justificativa para aquele assunto e nada...
Eu senti tanta vergonha.
Mas o amor é guia turístico para o vexame
E a verdade é que eu sempre amei passar vergonha com você
Ou para você, tanto faz.
Tenho medo que isso acabe um dia
Então, quando você terminar de ler, vem me visitar.

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