terça-feira, 2 de outubro de 2018

Fado da escrita

Para que serve a escrita
Coisa tão sentimental
Senão para nos tocar
Como fazem os sinos
De forma lunática
Brutal?
Rodar, rodar,
E rodar,
Num jogo delirante,
Desatinado destino e fado
Dos sinos empenhados
Em igrejas históricas
Perpetrando nas altas torres apáticas
Tristonhas e lindas
A euforia bucólica, pastoral,
Nos hinos dos sinos
Que não assinam nada, mas assassinam
Por serem conduzidos por homens
Que aprenderam o sentido,
A gravidade do ecoar da campânula.
Como, também, bem sabe a escrita,
A poesia
Mata e salva
Por isso a sua importância
No som, no silêncio,
No senti-la: o desnudá-la,
Para tocar e ser tocada
De forma proposital,
Sentimental e exagerada.
Como os sinos que ressoam,
A escrita golpeia,
Por sorte, traz a vida,
E, num deslize natural, nasce
Para causar a morte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ser luz quando a gente se conduz