Pai,
Não posso fazer o que você me diz
Porque não sou a sua vontade
Não almejo quase nada do que você me diz
Não posso ter os seus sonhos de menino, mas garanto,
Peço proteção ao divino, sempre que me lembro.
Também não posso ter nenhuma experiência
Sem vivê-la, não.
Mais do que eu, você conhece sobre o empirismo,
Por isso sei que você me entende bem.
E na vida eu não busco nada muito estonteante,
Como Adélia Prado
Eu não quero ser grande.
Quero ser alento para gente que se esconde,
Buraco com mola para quem sucumbe,
Quero ser sorte antes da fatalidade,
Mas não quero a obrigação de ser o norte de alguém.
Logicamente, para quem me ganha,
Para quem me toma a alma sem anuência,
Quero ser casa vazia de desvario,
Lotação de gardênias na estação de trem despovoada,
Animal manso não domesticado.
Quero ser
E comer
As frutas mais doces e vermelhas do mercado
Mas não posso encontrar-me no que você afirma
E mesmo que eu quisesse, pai,
Nada depende do que você me diz.
A minha desgraça vem de graça
Entregue pela vida
E a minha felicidade é consequência de viver distraída
Desleixada, desatenta, esquecida.
Deixa que a dor cicatriza, pai.
Mas só para constar, agradeço,
Com muito carinho, pelo amor.
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