Você subiu a escada encoberta
E eu aqui embaixo abraçada ao violão
A família toda ficou sabendo
A sala de estar não poderia encontrar-se mais lotada
Tal qual uma platéia esperando seu artista preferido
Todo o mundo num misto de alegria e inquietação
Esperando bater um quarto do relógio no início da tarde.
Então o interfone disparou, no mesmo ruído de sempre,
Mas dessa vez tudo soou tão diferente...
Os acordes do violão soaram mais tristes que de costume
Meus primos e primas, minhas tias, meu avô e meus irmãos
Me encararam com tamanha piedade e melancolia
E depois de muita insistência para que eu tocasse qualquer música,
Quando a canção finalmente saía, a serenata era baixa,
Por mais alto que a gente ia.
Milton, o bituca, ecoava numa comoção para além do normal
Como se fosse possível fazer Milton soar ainda mais comovente
Mas foi…
Quando o interfone tocou
Eu fui proibida de subir atrás de você
Entendi o peso que é carregar um passado estragado
E o mais pesado de tudo é que não fui eu quem estragou
Foi você que me chutou com botas de bicos de pedras
No momento em que você andava tranquilamente
Descalça sobre o meu piso de plumas
Deitando todos os dias sobre meu colchão adornado de fibras naturais
O violão ficou de lado, entregue às mãos do primeiro que vi,
Ao alcance de quem tentou me segurar por condolência.
Mas eu corri, engrandeci-me sobre a escada,
E quando finalmente vi as suas malas dispostas
Grandes, com overdose de tons de rosa,
Vigiadas pelos olhos árduos
De quem censurou de forma grotesca o nosso abraço…
Eu não consegui falar nada, você também não,
Você lembra?
Nosso silêncio foi pior que o barulho da ambulância
Apressada para o resgate de quem está à beira da morte
Quase todos dias, cortando a desordem da rua do café.
E na falta de verbos, no excedente de sentimentos,
O abraço demorado teve recinto no seu corpo
Mas não teve lugar no mundo
Muito menos o nosso laço, que durou tão pouco.
Aos vinte e seis anos, percebo que as coisas não ficam para sempre
Mas, pelo menos, Milton ainda tem ficado.
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