Você reparou na conversa dos pássaros
Rasgando a abertura da nossa janela sem vidros
E não fosse por você, a conversa dos pássaros seria
Semelhante aos bate-papos inúteis sobre
Quem veio primeiro, Deus ou o universo?
Não fosse por você, esses versos não falariam sobre
O canto dos pássaros às seis da manhã
E talvez Deus e o universo passassem despercebidos.
Pode ser que algumas coisas continuassem fazendo nenhum sentido
Quando você fala sobre as realidades físicas e espirituais
Quando você conta sobre o seu dia e sobre o café sem gosto da esquina
Quando você lê com as pernas cruzadas e o seu cabelo caído nos ombros
Te faz parecer com Judy Garland at home em 1941.
Não fosse por você, eu não me lembraria, a todo o momento, sobre a ciência de tudo
Nem da sua nuca tombada para a esquerda fazendo menção ao seu lamento
Quando na Tailândia sobrou muito mar, choro e escombros.
E quando você arrancou o controle da minha mão
Com o olhar magnético de imã sul, fazendo calor em excesso,
Me estagnou com a quebra do feitiço de polo-norte
Me arrancou o olhar de remanso e caiu como pena
Nas minhas pernas roxas de tanto não saber calcular a distância
Entre uma madeira e outra nas portas da casa que ainda não é nossa.
Quando você reparou na conversa dos pássaros
Eu nem sequer me lembrava que não havia chovido
Que era preciso molhar as plantas com dois copos de água
E o mundo já corria tão eufórico lá fora...
Já tinha gente com o rádio ligado, passando as roupas,
Outras tantas passando raiva.
Já tinha gente passando fome há uns três ou oito dias
Gente acordando com choro de criança e gente de sorte fazendo amor.
Quando você abraça e fala sobre os sabiás-laranjeiras
Como pode qualquer sono ser interrompido com fúria?
E por você eu reparei tanto no céu e na trova dos pássaros
Que quando você reparou em mim, e eu eu você,
Restaurou-se a euforia e o azul da minha vida.
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