terça-feira, 9 de outubro de 2018

Fobia confidencial

Liguei a TV para me distrair do pesadelo
Naquela madrugada nebulosa
As fake news eram condenadas pela jornalista ruiva
E era notório que ela tinha medo de errar a procedência da informação
O discurso que a mandaram falar, não era dela.
Eu compreendo o desespero, uma vez,
Na época em que eu estava na universidade,
Apresentei um trabalho sobre alguma teoria
Não me lembro sobre o que era...
Me recordo apenas que eu tinha domínio sobre a temática
Mas na falta de vocação para encarar dezenas de pessoas
A observar-me, a julgar a maturidade que eu ainda não tinha,
Me bateu um desespero estúpido
Que me estremeceu da cabeça aos pés
E só então pude entender o quanto prefiro conversar com os livros.
Naquela ocasião, se eu pudesse expor
Sobre o constrangimento de falar com espectadores,
Sobre a aflição da obrigação de decorar na cabeça
O que supostamente deveria sair de forma espontânea,
Talvez eu tivesse me levado menos a sério,
Talvez eu tivesse gaguejado menos.
E naquele dia nublado, em poucas horas,
Choveu e fez sol no fim da tarde, e na ocasião da noite,
Cheia de estrelas e de aviões entrelaçados,
Tudo assemelhou-se aos outros dias
Em que você ameaça que vem e nunca chega.
E quase na hora de fechar o portão, você aparece sorrindo,
Com uma boca enorme, um rosto branco e fino de Marisa Monte
Estremecendo-me por dentro até os dedos das mãos
Para muito além da cicatriz na palma da minha mão esquerda,
Como se eu tivesse diante de uma platéia
Coordenada por dezenas de pessoas a avaliar-me,
Num cômodo com portas trancadas, sem ventilador e sem ar.
Entregue à respiração ofegante devido à falta de calmaria.
Mas não
Não era nada disso...
Era apenas você, distraída,
Atravessando a rua e chegando de surpresa.

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