quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Bonecas de porcelana

A jovem coleciona bonecas antigas
E desespera-se de hora em hora
Quando vem o barulho devastador
Da aeronave se aproximando
Para pousar na pista ao lado.

Neste momento
Resta torcer com afinco
Para que as telhas singles fiquem intactas.
Parece loucura implorar a sorte todos os dias
Deitada no sofá da sala

E não rezar para que as bonecas de porcelana
Encontrem seu lugar no mundo,
Construam a sua sociedade de cerâmica,
Como há muito fez a civilização dos esquimós
Porque pertencem ao gelo

Não a um governo
A uma terra
A um natal.
Tem gente que pertence a qualquer chão
E gente que pertence ao horário da luz natural do Pacífico

E, portanto, torna-se raivoso, impaciente com a luz fria da Antártida.
Tem gente que não pisa na esquina de casa
Porque o sol faz mal para a vista
Porque a violência tem boa pontaria
Porque o príncipe não voltou da guerra.

E a gente obriga as bonecas de porcelana
A pertencerem às escrivaninhas empoeiradas
À nós mesmas.
E então também
Pertencemos a elas.

E passamos a não caminhar para longe
Porque estamos devotados, presos, paralisados demais.
À toda gente
Que possui bonecas de porcelana:
Ter medo delas é tão importante quanto ter medo de avião.

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Ser luz quando a gente se conduz